Texto: Lourenço Mussango


No quadro da celebração do ‘Março Mulher’, às 18h 50 do passado dia 7, num auditório Pepetela do Instituto Camões com as luzes apagadas, sob o som das latas contrastando com o negro da indumentária, o grupo ‘Enigma Teatro’ começou com a singela homenagem a Agnela Barros, figura proeminente e incontornável do teatro angolano.

Sob o som das latas, os personagens ganharam fôlego no discurso claro, reivindicativo e “enaltecedor” do teatro. A sátira trouxe à memória dos presentes questões burocráticas e viciantes intrínsecos ao estado actual do teatro nacional, nomeadamente: burocracia no aluguer de salas; vícios na outorga de prémios; falsa união entre os grupos e artistas da classe; fraca adesão do público às salas e a falta de solidariedade do Ministério da Cultura para com os fazedores de teatro. Com um cartaz ‘manchado’ com a palavra ‘Crise’, a personagem, ‘Dra. Agnela’ retirou o ‘s’ e deu origem ao termo ‘Crie’. E a mensagem da peça teatral ficou clara: mesmo em tempo de crise os artistas devem criar. O aroma da criação chegará às pessoas como o cheiro de feijão queimado. Intenso.

Seguiu-se o momento de Stand-up comedy. Orlando Capata deu voz ao tema por ele escrito e eleito ‘Os Barros e a Escola de Loucos’. À vontade, com alguma pitada de humor,  teceu alguns elogios à doutora Agnela Barros. Falou da sua formação e experiência no CEART – Complexo de Escolas de Artes. E uma mensagem ficou patente: “A Dra. Agnela nos dizia sempre ‘meus filhos, o artista tem de ser livre e se exprimir'”.

A performance sobre o ‘Canto Liberto’, protagonizado por Noah Wete, marcou a noite de homenagem à jornalista Agnela Barros. Noah, com a voz pintando uma canção não bem afinada, enalteceu a mãe que o nascera. Rendeu homenagem às mulheres da terra, em especial a africana, mulher angolana. E antes de declamar o poema intitulado ‘Adeus à hora da largada’ de Agostinho Neto, fez questão de reiterar que é fruto da influência de Pepetela, Agnela Barros e de seu mestre cujo nome não nos revelou. E com tamanha lucidez afirmou: “O teatro não é só para rir. O teatro é para consciencializar pessoas, reflectir o país, a inclusão e o amor ao próximo e a pátria.” lembrou.

Armindo Paim, nas vestes de apresentador do evento, depois de cantar um poema, convidou Ângelo Reis, ‘Poeta dos Pés Descalços’. Este, depois de filosofar um pouco, dedicou um poema de amor a todas as mulheres presentes no auditório Pepetela. A directora do Instinto Camões, doutora Teresa Mateus, na sua intervenção fez questão de dar a conhecer o vasto e rico curriculum da homenageada. De igual modo, Pedro Cardoso (jornalista angolano residente no México) falou sobre o imprescindível contributo de Agnela Barros no teatro, na dança, na pintura e na investigação científica sobre a arte e cultura angolana. A família residente em Portugal também fez questão de tecer rasgados elogios e palavras de incentivo à homenageada. Assim, seguiram-se colegas, discentes e amigos.

O Centro Cultural Português, na pessoa da doutora Teresa Mateus, a título de recordar a  homenagem, ofereceu uma placa com alguns dizeres e o rosto da homenageada estampado. O buquê de flores também se fez presente. E a cantora de jazz Katiliana, acompanhada pela banda de Nino Jazz e Dalu Roger, cantou e encantou o auditório Pepetela com a sua voz graciosa.

Além de escritores, actores e jornalistas o evento contou com a presença de ilustres figuras como: José Mena Abrantes; António Fonseca, Rosa Cruz e Silva; Luisa Fançony e Arlindo Isabel.