Por: Albino Tchilanda


Crianças de 13 a 15 anos, na cidade de Ondjiva, província do Cunene, frequentam o ensino primário de noite, em conversa à JdB  na manhã desta segunda-feira, o Director Provincial da Educação local, Lúcio Ndendaci, confirma e justificou o  facto com a insuficiência de salas de aulas  na cidade e alerta que o número de crianças a estudar à noite poderá crescer no próximo ano, uma vez que, ainda não há construção de escolas na capital do Cunene. O responsável entende ainda que entre deixar a criança fora do sistema de ensino e estudar à noite, o mal menor é estudar de noite.

O fenómeno é paradoxal, pelo facto de noutros municípios haver mais salas de aulas, mas sem alunos, o que na opinião do responsável, as crianças muitas vezes optam em estudar por onde também já há crianças.

Muitos desses meninos têm de percorrer longas distâncias em busca do saber e alimentar o sonho que partilharam com a JdB, por isso vêem nas dificuldades do dia a certeza de terem os desejos realizados, como é o caso do pequeno Muechi, de 14 anos, que estuda a 8ªclasse.
“Vivo na zona do aeroporto. É mesmo difícil chegar aqui, na Rei Mandume ( referindo à escola onde frequenta as aulas, no centro da cidade). Eu já não vejo distância. Quero ser professor”, confessou.

Se alguns meninos olham para a distância como motivação para verem concretizados seus sonhos, outros, apesar de saberem que ainda têm pela frente um longo caminho a percorrer, já que o ensino básico não é suficiente para se tornar num professor, médico, engenheiro ou jurista, os estudantes também lamentam por terem que andar longas distâncias em busca do conhecimento, como é o caso de Muhodi, de 16 anos de idade, estudante da  9ª classe na escola ‘Comandante Cow Boy’, no centro da cidade, mas que vive nas imediações da vila Ucapali.
“Vivo ali para quem vai ao aeroporto. Venho mesmo a pé. Quando estou cansado não venho à escola”, lamentou.

Apesar de não cumprirem as 4 horas e 30 minutos de aulas como habitual, os adolescentes mostraram-se satisfeitos pela forma como seus professores transmitem os conteúdos. A disciplina de Matemática e Biologia é tida como a mais difícil, entre os futuros quadros do país.

As aulas começam às 18 e dura cerca de 3 horas, ou seja, das 18 às 21 horas, mas esses horário muitas vezes é adulterado, porque, segundo denunciou um dos estudantes, há professores que não terminam o tempo lectivo, chegando mesmo por abandonar a sala antes do tempo.

Sem medo do escuro nem da distância que têm que percorrer, os meninos colocam-se a caminho de regresso à casa, à conversa e em grupo sabe sempre melhor e vale a pena o esforço. Outro aspecto de realce, que é o menos mal, é a segurança, “o  caminho é seguro, porque aqui não há bandidos como outras províncias”, testemunhou a pequena Esperança.

Além das escolas:  Mandume, Comandante Cow boy, a JdB visitou também outras do ensino primário como a 56, no bairro Naipalala, onde o cenário era o mesmo, meninas, de 13 anos a frequentarem o ensino noturno. Para a pequena Esperança este é o primeiro ano que estuda de noite, nos outros anos estudou na escola 1 de Janeiro, no período da manhã. A adolescente disse estar a gostar da experiência, porque para ela “melhor é estudar de noite do que ficar em casa sem estudar”, considerou.

“É o primeiro ano que estudo de noite. É difícil, mas já estou a costumada. O pai tentou me colocar de manhã, mas não conseguiu”, narrou, sem dispensar o sorriso inocente no rosto.
O número de crianças a frequentarem os estudos no período nocturno poderá aumentar, porque o número de estabelecimento de ensino primário na capital ainda é reduzido.

Entretanto há quem estude de noite por falta de tempo, porque se dedicam, durante o dia, à venda ou ajudam as mães a tomar conta do pequeno negócio, por aí fora, acrescentou a pequena.

Giudi, de 15 anos, frequenta a 8ª classe, na Rei Mandume e vive próximo do Instituto Medio de Administração e Gestão (IMAG). A pequena aproveita o período da manhã para vender “paracuca” (ginguba com açúcar), por isso estuda de noite. Seu sonho é ser agente da Polícia Nacional, segundo confessou.