Por: Albino Tchilanda


Os membros da igreja Adventistas do 7º Dia acusaram os líderes máximos daquela organização religiosa em Angola de extorsão e desvio de dinheiro dos dízimos e das ofertas dos fiéis para o enriquecimento pessoal, os seguidores inquietam-se também com a má divisão desses valores, o que causou o desentendimento dos pastores que estão a ser julgados desde a passada sexta-feira, 29 de Setembro, na XIIIª Secção dos crimes comuns do Tribunal provincial de Luanda, sito no Golf 2.

 À JdB, um dos anciãos e membro desta igreja há mais de 50 anos revelou que depois dos pastores indiciados no caso, incluindo Daniel Cem, que se diz ser vítima, se desentenderem simularam o sequestro, exigindo 100 milhões de kwanzas para o resgate com o objectivo de se encobrir o buraco de uma conta onde depositavam o dinheiro que os sete pastores desviavam da igreja, mas só que um deles andou a gastar sozinho.

“Em 2013 a Associação Norte, que controla e recebe o dinheiro de mais de 200 igrejas,  notou o desvio de cerca de  40 milhões de kwanzas do cofre da igreja, depois de apurado descobriu-se que um deles, o pastor Cem, era o autor do acto, mas a igreja não o destituiu”, desabafou um dos anciãos.  

Os desabafos e revelações dos membros desta religião acabam por colocar várias curiosidades, fiéis dizem-se chocados com as atitudes dos sete lideres máximos envolvidos no processo que deu entrada em Outubro de 2015 na 13ª Secção dos crimes comuns do Tribunal provincial de Luanda, no Golf 2, e que aguardam expectantes a leitura da sentença prevista para ainda este mês. 

Numa altura em que decorre a leitura dos quesitos do suposto rapto do pastor Daniel Cem, que antes de ser excluído da igreja, em 2015, era o presidente da Associação Norte, região que congrega o maior número de igrejas em Angola (Luanda, Bengo, Malanje, Kwanza-Norte, Uíge, Cabinda e Zaire) num total de 200 congregações maiores e mais de 150 acapelas.

Segundo o Advogado de defesa da vítima, os líderes religiosos: Teixeira Vinte (secretário da união),  Burn Simba (tesoureiro da união), Adão Hebo (responsável da escola Sabatina e Ministério  Pessoal), João Sonhi ( ancião da igreja Central de Luanda) e João Dala (líder da Juventude) terão sequestrado o pastor Cem para impedir que este ascendesse ao cargo de presidente da União Angolana ( o último escalão da igreja num país).

Quem são os líderes, de Vinte a Cem? 

Para os crentes da igreja da Regedoria, última congregação que dirigiu o pastor Cem, todos são “farinha do mesmo saco”, porque Teixeira Vinte é tio de Daniel Cem, por isso não entendem o porquê deste embaraço, já que Vinte terá influenciado a ascensão de Cem para a presidência da Associação, em 2000/2002, quando Pasmore Ashanhinga e Wimbo Sivanda, ambos estrangeiros rumaram para seus países.

Os seguidores de Cristo lembraram à JdB que o pastor Daniel Cem não é formado pela doutrinado Adventista. O mesmo terá se doutorado em Teologia, mas numa outra igreja e sempre teve problemas com as igrejas por onde passou, na Regedoria, por exemplo, queria privatizar a casa pastoral e uma escola primária pertencentes à igreja, por isso concluem que houve algum “corredor” na sua eleição como presidente da Associação, e o pastor Vinte terá sido o facilitador.

“O líder Cem é tio do pastor Vinte e graças ao Vinte o Cem havia sido eleito Presidente da Associação em 2000/2002. Eles têm acesso ao cofre da igreja. Na Regedoria o pastor Cem teve que abandonar a congregação por protesto dos fiéis, mas inda sobe como presidente da Associação!”, exclamou um dos familiares de Vinte.

Outros membros não esconderam o desaforo, “enquanto nós, os membros passamos o dia a vender de baixo do sol, eles vão passar férias na Europa, os filhos estudam nas melhores universidades. Deus vai lhes castigar”, praguejou uma senhora do MM (organização feminina afecta à igreja).

Um dos ex-tesoureiros daquela denominação lembrou que em 2006 participou de uma reunião com todos os pastores envolvidos no crime que está a ser julgado hoje e o assunto daquela reunião, lembra, era o desvio de valores, porque um deles não depositava para o cofre da igreja o valor das ofertas.

“Nós, os membros, não sabemos o que está a se passar. Uma vez eles nos chamaram, eu e os outros tesoureiros das igrejas de Luanda fomos acusados de estar a roubar os dízimos e ofertas. Depois disso eu decidi renunciar o cargo”, lamentou o mordomo.

O pastor Vinte, continuava o interlocutor aparentemente amargurado com a situação, era o segundo homem mais forte da igreja e foi corrompido pelo tio, o pastor Cem, mas agora o Vinte está a colher o seu próprio fruto. O Vinte está a beber o veneno da cobra que ele mesmo criou” disse o antigo tesoureiro.

O documento

Numa altura de incertezas e curiosidades em que aguarda pelo desfecho do processo, os crentes dizem esperar pela mão de Deus para salvar a igreja, que consideram a única verdadeira igreja no mundo.

Sobre o documento do suposto parente de Cem, que circulava nas igrejas, dizendo que estava arrependido por aceitar as falcatruas do tio, afinal, foi uma farsa dos sete pastores, segundo revelou um outro ancião da igreja Central de Luanda. “Aquele documento eles mesmo produziram para enganar os fiéis, mas Deus não se deixa escarnecer”, consolou-se.

O que terá motivado os pastores

Um pastor naquela denominação cristã tem direito a uma casa, carro, empregada, salário, subsidio de saúde e alimentação, além das doações do Governo.

Mas o pastor não é o único a ter essas benesses, porque os tesoureiros, secretários e presidentes, conhecidos nessa igreja por tripê, entende-se, Divisão, União e Associação, têm ainda mais regalias que os pastores.

 O cadeirão máximo da igreja a nível do mundo é o do presidente da Assembleia Geral, e está nos Estados Unidos da América, seguido do das Divisões, Uniões e Associações respectivamente. Lembramos que em Angola a União era dirigida por Teixeira Vinte e a Associação por Daniel Cem, enquanto a Tesouraria ficava sob o controlo de Burn Simba, este último de nacionalidade zambiana.