Texto: Michel Candembo


Muitas opiniões convergem no sentido de que no decorrer do tempo a música angolana deu um grande passo qualitativo ao longo do seu percurso. Desde os tempos em que conjuntos como os Ngola Ritmos tiveram a ‘ousadia’ de cantar música verdadeiramente angolana, até os dias de hoje, muita coisa boa já aconteceu por cá em termos de sonoridade musical.

Estilos como o Kuduro e a Kizomba nasceram por aqui e hoje são já referência noutras paragens mundiais. O que preocupa, porém, enquanto apreciador, é o facto de muitos dos novos artistas de destaque na nossa praça, estarem condicionados a fazerem músicas com tendências efêmeras em detrimento daquelas a que chamamos músicas intemporais. 

Nomes que já deram provas do seu talento  como Anselmo Ralph e Matias Damásio, que depois do estrondo do primeiro trabalho lançaram outros CD’s que apesar de terem muito boa qualidade, na minha opinião não superam suas duas primeiras obras. Talvez se deva a necessidade que tiveram de se moldar enquanto artistas para atingir outros mercados e garantir sua solidez no mercado nacional, o que é perfeitamente perceptível, mas não torna inegável o facto de que os ouvintes mais saudosistas (eu inclusive) sentem falta daquela música a que nos habituaram no princípio. 

Os músicos são artistas e por essa razão é perceptível que queiram viver da sua arte, o que torna muito mais difícil exercerem a sua liberdade criativa, pois têm as editoras a pressionarem para que cumpram os prazos de lançamento e outras questões da sua agenda, prejudicando aqueles que preferem música qualidade (independentemente do estilo) para acudir aos ouvintes menos críticos e mais generalistas que no meu entender constituem a maioria.

 

Os músicos/intérpretes devem tomar cuidado para evitar tornar mecânico o processo em consequência das razões citadas nos parágrafos acima. O que se pretende com este apelo não é aconselhar os artistas a desistirem de viver da arte sob pena de perderem a sua capacidade de criação e inovação, é apenas solicitar que se busque um meio termo entre os factores criatividade e periodicidade, pois artistas como o conceituadíssimo Paulo Flores nos mostram que é perfeitamente possível fazer essa simbiose.