Por: Redação


Subiu para 276 o número de mortos no atentado terrorista da história da Somália, ocorrido no último sábado. De acordo com a agência AFP, cerca de 350 pessoas ficaram feridas no ataque. Dois veículos-bomba explodiram com pouco tempo de diferença no centro da capital, Mogadíscio, deixando dezenas de cadáveres carbonizados, edifícios destruídos e hospitais lotados de feridos. Apesar de ainda não ter sido reivindicada, os especialistas e a imprensa local não têm dúvidas da autoria, é da Al Shabab, a milícia jihadista que assola a região com constantes ataques.

O atentado ocorreu na tarde de sábado, dia 14. A primeira e mais sangrenta explosão, causada por um caminhão-bomba ocorreu às 15h do horário local (13 horas em Angola) na área conhecida como PK5, próxima ao hotel Safari, em uma das ruas mais movimentadas da cidade, com muitas lojas e restaurantes, em uma hora em que numerosos vendedores de rua ocupavam as calçadas, informou a EFE. Testemunhas relataram que as vibrações da explosão foram sentidas em toda a cidade. Uma coluna de fumaça negra de três quilômetros de altura se formou. A segunda detonação, de menor intensidade, ocorreu instantes depois, próximo a um mercado no distrito de Wadajir.

À estação televisiva Al-Jazira, o director do serviço de ambulâncias da capital somali, Mogadíscio, que foi palco de um duplo atentado, no sábado, afirmou sem hesitar: “O meu país nunca viu nada assim.” O testemunho de Abdulkadir Abdirahman passa nas imagens do canal e foi republicado online. Acompanhado do mortal balanço: pelo menos 276 mortos, e perto de 350 feridos.

“Estava a ser um dia normal. O meu escritório fica a um quilómetro do local da explosão”, descreveu Abdulkadir  Abdirahman, àquele canal árabe de televisão, aludindo ao primeiro rebentamento do que é um dos mais mortíferos atentado desde que o grupo jihadista Al-Shabaab, relacionado com a Al-Qaeda, começou a controlar partes importantes do território em 2007.

“De repente, uma explosão. Tudo abanou. Nunca tinha ouvido nada tão ruidoso. Em poucos minutos, o céu encheu-se de fumo muito negro, escondeu o sol”, prosseguiu.

A primeira explosão, segundo fontes policiais citadas pela Reuters, ocorreu quando um camião armadilhado foi pelos ares no exterior de um hotel situado num cruzamento identificado como K5, junto de escritórios governamentais, restaurantes e lojas. A embaixada do Qatar sofreu danos graves com a explosão.Dezenas de viaturas incendiaram-se depois da explosão de um camião armadilhado EPA/SAID YUSUF WARSAME

A mesma agência descreve que a explosão arrasou edifícios e pôs dezenas de veículos em chamas nas redondezas. Duas horas mais tarde outra explosão, desta vez na zona da medina de Mogadíscio, fechou o duplo atentado de sábado.

O atentado aconteceu dois dias depois de o general que lidera o Comando de África dos Estados Unidos ter ido a Mogadíscio para se reunir com o Presidente da Somália, e depois o ministro da Defesa somali e o chefe do Estado Maior do Exército se ter demitido, por motivos que não foram tornados públicos, diz o jornal de Nova Iorque. Este ano, o exército norte-americano tem reforçado os ataques com drones contra a Shabaab, que recentemente tinha aumentado a sua ofensiva contra bases militares no Sul e Centro do país.

Os EUA, através da sua missão na Somália, condendou os “ataques covardes” e reafirmou a intenção de unir forças com o governo local e a União Africana no combate ao terrorismo islâmico.

Há equipas de resgate a percorrer o que resta dos edifícios que ruíram à procura de pessoas dadas como desaparecidas. Foi esse trabalho que permitiu encontrar muito mais vítimas.

Até agora, ninguém reivindicou a autoria do atentado. Porém, desde o início da revolta islamista, há dez anos, o grupo islamista Al-Shabaab,controlou diferentes áreas do país, incluindo a capital entre 2007 e 2011 e é-lhe atribuída a autoria de diversos atentados ocorridos desde então em Mogadíscio e no resto do país.

Além disso, as autoridades descobriram que o atentado foi realizado com dois caminhões-bomba, e não um, como havia sido divulgado anteriormente.

Os médicos ainda lutam para salvar os mais de 300 feridos no atentado, muitos deles queimados além da possibilidade de reconhecimento. As autoridades locais ainda temem que o balanço da explosão continue se agravando, mas, segundo a “Associated Press”, oficiais não estão autorizados a conversar com repórteres.

O ataque ocorreu em frente ao hotel Safari, que fica perto de ministérios do governo somali e em uma rua bastante movimentada de Mogadíscio. O prédio foi amplamente destruído pela explosão. “Em nossos 10 anos de experiência em primeiros socorros em Mogadíscio, nunca tínhamos visto algo assim”, diz uma mensagem postada no Twitter pelo serviço de ambulâncias da capital.

O presidente Mohamed Abdullahi Mohamed declarou três dias de luto e se juntou às milhares de pessoas que responderam aos apelos desesperados dos hospitais por doações de sangue. “Estou implorando ao povo somali para que doem”, afirmou o mandatário.

Segundo o diretor do Hospital Medina, Mohamed Yusuf, citado pela “AP”, o local está sobrecarregado de mortos e feridos. “Recebemos pessoas cujos membros foram arrancados pela bomba. É realmente horrível, nunca tínhamos visto algo assim”, acrescentou.

De acordo com o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, pelo menos quatro voluntários estão entre as vítimas. “O balanço pode aumentar porque ainda há muitos voluntários desaparecidos”, diz um comunicado da entidade.

A explosão ainda não foi reivindicada, mas o governo culpa o grupo fundamentalista islâmico somali Al Shabab, que vem aumentando suas ações no centro e no sul do país nos últimos meses. A milícia está em guerra contra o Exército e os mais de 20 mil homens enviados pela União Africana, que contam com o apoio de drones dos Estados Unidos.

O atentado ocorreu dois dias depois de um encontro em Mogadíscio entre o presidente da Somália e expoentes do comando dos EUA na África. Além disso, três dias atrás, o governo perdeu dois membros de seu alto escalão, o ministro da Defesa Abdirashid Abdullahi Mohamed e o chefe das Forças Armadas Ahmed Jimale.

Situado no Chifre da África, o país é um dos mais vulneráveis do mundo por causa da pobreza disseminada, da atuação de milícias terroristas e da instabilidade política. Em março passado, o governo somali chegou a declarar estado de calamidade nacional por causa da fome.

Ataque de sábado na capital é dos mais mortíferos desde o início da revolta islamista no país, em 2007.