Texto:  Neliengue Sancho
Imagens: Domeneves Anthony


Lindomar de Sousa é um reputado cartoonista, dos grandes mentores do festival de Banda Desenhada, Luanda Cartoon, que acolhe as letras e o desenho num único espaço, já viu seus trabalhos publicados no Jornal de Angola, na revista Caras. Actualmente tem uma tiragem diária no jornal O País. Por aí não parou. O artista faz também animações para a TPA e UNITEL.

O trabalho de Lindomar não é visto apenas em Angola, há países como França, onde há um festival, considerado o maior da Europa. Já recebeu prémio em Portugal e no Brasil nos festivais de Banda Desenhada e tem publicado também nestes países.

Cidade quente, trânsito infernal, fluxo de gente em todo canto, sol e muito calor…Típico da  capital, Luanda, estávamos nós à caça do jovem da banda, de 34 anos,  algures na centralidade do Kilamba.

Recebeu-nos, logo preocupado em nos pôr ao corrente da sua opinião em relação à arte: “o banda desenhista é órfão da literatura e do desenho” assim definiu a arte que leva no sangue o banda desenhista Lindomar de Sousa.

Quando uma pessoa não tem mãe ou pai [ ou se perder os dois] diz-se que é órfã  de pai ou de mãe, entretanto não são apenas as pessoas  que podem ser órfãs, as artes também. O artista entende que o banda desenhista é o filho órfão da literatura e da arte plástica, ou seja, “é um filho bastardo das letras e do desenho porque além da pintura há presença do texto”.

Música, pintura, literatura, escultura, cinema, escrita, cozinha, fala, bem, enfim, tudo na vida é arte, e há uma que é órfã. Sabe de que arte se trata?

Na história recente da arte angolana é imprescindível o nome do jovem da banda que vai pintando e desenhando Angola em pranchas além-fronteiras.

Desde muito cedo Lindomar de Sousa descobrira o gosto pelos desenhos graças ao pai, que morando fora de Angola, na altura, mandara para si uma caixa que continha diversos livros de banda desenhanda.

“Naquele tempo eu não tinha muita coisa a fazer depois das aulas porque estudava no período da manhã e a televisão só abria às 18 horas, então, eu ficava das 13 às 18 horas sem fazer nada e como as vídeo-cassetes estavam  na moda, pedi ao meu pai que enviasse para mim, mas para a minha surpresa quando abri a caixa, lá estavam  inúmeros livros de BD e fiquei muito chateado com ele” conta.

Durante muitos anos Lindomar ou Lindox, como é conhecido no mundo das artes, brindou o povo angolano com a famosa personagem CABETULA , uma revista que é proibida aos maiores de 99 anos pelo excesso de humor que o artista retrata os assuntos.

Na sua formação como grande figura da arte de desenhar e de escrever, Lindomar contou com ajuda de Henrique Abranches considerado o pai da BD angolana, onde  que com andar do tempo veio a ter relações com Tirso Amaral, proprietário da galeria ‘Humbi-umbi’.

Tirso Amaral era quem os levava a  fazer entrevistas, ir à televisão, era o promotor que o estava pô-los  “famoso”. Depois da morte, foi quando fizeram uma homenagem ao malogrado na UNAP “e depois vi que afinal podíamos fazer mais pela BD. Senti a necessidade de dar continuidade ao trabalho e assim fiz a primeira edição do Festival internacional de banda desenhada ‘Luanda Cartoon'”. O Luanda cartoon é considerado, segundo Lindomar, o maior festival da BD de língua portuguesa em África, perdendo apenas com o de Portugal e do Brasil “porque também os investimentos são outros e os artistas que vêm para aqui já dizem que é o primeiro, perdendo apenas para Argélia, porque acontece em mais países”

Estúdio de gaveta

Agora junto do irmão, Olímpio de Sousa, Lindomar criou o estúdio ‘Olindomar Estúdios’, que começou como uma gaveta oferecida pelo pai para arrumar todos os livros de BD que tínham, nesta gaveta escreveram ‘escritório’. “Meu pai quando viu aquilo disse que eu estava a ficar maluco”.

Recorda-se que com o passar do tempo recebiam muita gente importante do país em casa que “queriam saber mais do nosso trabalho e foi assim que o pai nos disse para ficar com a varanda e lá podíamos receber as nossas visitas. Fiquei muito feliz e novamente peguei num papel e escrevi ‘Estúdios Olindomar’, nome dado por Olímpio. Esse estúdio venceu o Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição 2016.

Dono das personagens ‘As aventuras de Picolé e Joaquim’, ‘Cabetula’ e outros, o jovem da banda criou e anima o projeto BD com Feijão e o Drink e Draw que acontece aos fins-de-semana em pontos de Luanda.

Entre todas as personagens por ele criadas, a mais famosa é a Cabetula, que crianças, jovens e velhos esperavam ansiosamente para ler.

Cartoons

O ‘Luanda Cartoon’ hoje conta com 13 edições e todos os anos artistas de outros países juntam-se ao festival para expor seus trabalhos e partilham experiências de trabalho e de culturas.

Como jovem, anseia que haja envolvimento de todos e que se criem oportunidades para outros  artistas publicarem, porque há interesse da parte dos artistas, que apoiem, não apenas com dinheiro, “principalmente com meios, porque todos podem ganhar com isso, a padaria, a Rent a car e outros”.

O artista garante que é possível viver da BD em Angola.

Todos os dias as novas personagens do Lindomar, Gin e o Ngongo, desfilam no palco de O País de forma humorística, encontramos caras feitas pelo conceituado artista o qual seu nome não se confunde quando do filho órfão da literatura e do desenho se tratar em Angola.

Fonte: Neovibe