Por :Albino Tchilanda


Dezenas de crianças de 10 a 14 anos, na cidade de Ondjiva, província do Cunene trocam os estudos pela venda de ovos. Diariamente os pequenos  acordam às 5 da manhã, percorrendo os 7 a 9 quilómetros de distância a pé rumo à cidade de Ondjiva,  onde vão andando de bairro em bairro para conseguirem vender os 30 ovos diários dados pelos patrões para no fim do mês receberem 6 mil kwanzas de salário. Valor este que vão economizando até conseguirem os 10 ou 12 mil kwanzas para compra de cabritos e dedicarem-se à sua criação.

Para quem já visitou ou tiver que visitar a cidade de Ondjiva, capital da província do Cunene, no município do Kwanhama, poderá verificar a cada 30 metros que percorrer um aspecto curioso, meninos em idade escolar a se dedicarem na venda de ovos fervidos acompanhado do gindungo misto com sal. Estes ambulantes, em entrevista à JdB explicaram que conseguem percorrer do município de  Xangongo ou Namacunde à capital, Ondjiva,  para a busca do negócio porque os 6 mil/mês que conseguem obter de recompensa poderão comprar cabras ou cabritos e dedicarem-se à pastorícia.

“O ovo é que não custa vender”, dá a entender que é o negócio mais fácil de se obter na província “e os 6 mil que recebo durante o mês, vou juntando para comprar cabritos lá no mato e depois criar”, reportou o pequeno Huessana Paulo, de 10 anos.

Com o cartão de 30 ovos nas mãos, sal e gindungo, os adolescentes vão andando da vila Ucapali, passando pela praça da Alemanha, no bairro Cafitu 1, até ao maior mercado do município do Kwanhama, a praça do  Chamukuyo (quase 11 quilómetros de distância).

Muitos desses adolescentes  nunca sequer passaram na escola, por isso não sabem ler ou escrever. Mesmo quando se trata do seu próprio nome, como é o caso do jovem João, de 18 anos e o Huessana, de 10. Este último, por exemplo, não consegue se comunicar em Português, o que obrigou a equipa da JdB a explorar suas habilidades numa das línguas locais, o Oshikwanyama.

Huessana contou que decidiu vender os ovos porque não consegue fazer outra coisa, o rapaz confessou que nunca se preocupou com a escola porque vive nas imediações da Cadeia do Peupeu e a escola fica muito distante da sua aldeia.

“Vivo no Peupeu. A escola fica muito distante. Conheço uma que fica no Xangongo. Vou buscar o negócio nos Castilhos, quero juntar 10 mil para comprar cabrito”, manifestou-se.

Outros meninos que também se dedicam ao negócio e que conversaram connosco são o Zinho, de 12 anos, e Pedro de 13, estes, ao contrário de Huessana e de João, que nunca foram à escola e vendem ovos alheios, os rapazes frequentaram até a 3ª e 4ª classes, respectivamente, na escola 1 de Janeiro, bairro Cafitu 1, mas, segundo contaram, não puderam continuar por não terem conseguido fazer matrículas a tempo e perderam o ano por isso dedicam-se nos seus próprios negócio.

“Eu estudei a 4ª classe na 1 de Janeiro, mas não consegui prosseguir porque atrasámos em fazer a matrícula noutra escola. Onde estudei não tem a 5ª classe”, contou Pedro, de 13 anos.
O cartão de 30 ovos compram a 1.500 kwanzas e vendem 100 kwanzas, cada, e conseguem ter um lucro de 1500 kwanzas no cartão. Mas nem sempre conseguem vender os 30 avos que lhes são dados pelos patrões e isto a JdB constatou, porque já eram 14 horas, sol ardente, mas Huessana apenas tinha vendido 7 ovos, o que nos levou a comprar mais 4 e diminuir o peso das mãos do rapaz.

Se conseguem vender os 30 ovos do dia, voltam à aldeia satisfeitos e o patrão, que muitas vezes tem mais do que cinco crianças a venderem o negocio,  também fica feliz, por isso, para agradar o patrão, os rapazes percorrem em tudo que é canto da cidade: Castilhos, Pioneiro Zeca, Caculuvale e Camukuyo para venderem os ovos.
Apesar de não ter sido um bom dia para as vendas, com  sorriso nos lábios, os guerreiros dos ovos postaram para uma foto.