Fonte: Escreve Eliana, Escreve


A música pop africana tem estado a passar uma fase de ouro, com vários artistas a terem reconhecimento internacional fora daquilo que é a “world music”. No hip hop, na kizomba, no RnB e em vários outros estilos musicais, África começa a destacar-se.

Contudo, apesar do som distinto dos sons de hip hop e de kizomba vindos do nosso continente, comparados àqueles de outros locais do mundo, nos vídeos e nos estilos de vida promovidos nada difere.

A nossa criatividade parece não ir tão longe. A imagem da mulher negra nestes espaços continua a ser usada apenas para reforçar estereótipos.

Na cultura pop, o papel da mulher negra sempre foi muito marginal. Apesar as contribuições de mulheres fora do padrão como a Missy Elliott, a maioria das mulheres negras que vemos na indústria musical estão apenas como acessórios para o sucesso de outras pessoas.

São as suas bailarinas, coristas, maquilhadoras, coreógrafas, mas quase sempre o seu papel é apagado.

Em África esta tendência começa a evidenciar-se. É comum nos vídeos das estrelas vermos as protagonistas sendo mulheres negras claras ou até mesmo brancas, com uma ou outra negra escura no plano de fundo ou geralmente hipersexualizada e exotificada ao extremo.

O padrão que estabelece como belo no feminino como as feições europeias e a pele clara está tão enraizado e é tão penetrante que não pode ser visto como mera coincidência. Fazendo uma pesquisa rápida pelo Youtube e observando os vídeos musicais de artistas africanos mais vistos rapidamente fica claro que não é uma questão pessoal, mas sim estrutural.

É uma manifestação do racismo e colorismo presentes na nossa sociedade.

Enquanto o racismo é a sobrevalorização de todos os aspectos e atributos da cultura branca (leia-se Ocidental), já o colorismo caracteriza-se pela descriminação de uma pessoa negra de acordo com a tonalidade da sua pele, privilegiando os tons mais claros e os traços associados às pessoas brancas (cabelo liso; nariz fino; etc).

O colorismo é um problema do qual já falei aquando da campanha “No Make Up” (Sem maquilhagem) da Alicia Keys.  O colorismo manifesta-se, por exemplo, no excesso de manipulação das fotos das mulheres escuras em capas de revista para que fiquem mais claras e até no preterimento das mulheres negras pelas mulheres mestiças.

A pessoa de pele mais clara é tolerada pois aproxima-se mais à branquitude. E é por isso que o colorismo é resultado do racismo.

Os artistas africanos também são produto dessa mesma sociedade e como tal, muitas vezes, talvez até de forma implícita, sem se aperceberem perpetuam estes ideais de beleza eurocêntricos.

Tendo como referência outras figuras proeminentes, da Europa e sobretudo dos Estados Unidos da América, os artistas africanos inspiram-se na linguagem figurativa e no imaginário daquilo que é o sucesso e o que o sucesso representa para elaborar as suas próprias linhas de comunicação.

Desta forma, sem desafiar as produções da indústria que já são habituais, as mulheres no geral e em especial as negras, aparecem como objectos muitas vezes sem uma cara, somente em pedaços.

As mulheres negras são usadas como acessórios para validar a desejabilidade sexual dos artistas, mas não para representar pares românticos.

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