Fotografias: Jerónimo Félix


Danecia Nicacia Chaves Sibingo, natural de Luanda. É uma arquitecta que se inspira na natureza, arte e fotografia. Considera-se uma arquitecta com uma abordagem paramétrica e moderna no design. Um dos destaques da sua carreira académica foi vencer uma competição de design para construir um pavilhão em Londres. O pavilhão ficou exposto ao público em Beadford Square e posteriormente levado para a galeria de Phillips de Puy e Company em Londres. Lá, foi comprado por Yves Carcelle, CEO da LVMH (Moet Hennessy and Louis Vuitton).

Teve a oportunidade de trabalhar com a Archer Archtects em Londres, Caboko em Luanda e Aktins no Dubai. A força de vontade de ajudar a reconstruir o nosso país levou-lhe, juntamente com dois parceiros, a abrir o atelier Artis Aedi, Lda. Inspira-se em Michelle Obama, Isabel dos Santos, Igho Sanomi e Zaha Hadid.

Em entrevista a revista Jovens da Banda, a jovem falou-nos da sua profissão e dos desafios que enfrentou para alcançar os seus feitos.

  1. dQuando e como optou pela arquitectura?
    Bem, eu optei pela arquitectura desde o momento que entrei para o colégio em Londres, durante aquela altura do colégio tive a oportunidade de fazer algumas disciplinas relacionadas com a arquitectura, bem como arte, fotografia e Matemática e comecei a ganhar uma paixão tremenda pela arte, na altura tinha 16 anos, e apesar de nunca ter feito nenhum curso em arte sai-me bastante bem. É algo de que gostava e senti-me apaixonada e por influência da minha professora, que notou que eu tinha bastante capacidade, puxou-me também para aquele lado e até ela comentou na brincadeira, que se eu não fosse aceite em nenhuma das Universidades ou se por alguma razão não gostasse do curso, podia me tornar artista e em seguida em respondi: Professora, eu não posso porque a arte no meu país não dá nada e eu penso em ser arquitecta para ajudar a reconstruir o meu país que está em guerra, naquela altura tínhamos terminado a guerra e eu disse não, tenho que ser arquitecta para ajudar na reconstrução do país e lá fui.
    d
    d
  2. Quais são as dificuldades que encontra no exercício da profissão actualmente?
    Bem, actualmente, as dificuldades são baseadas mais na situação de crise que nós temos no país, em que jovens arquitectos que acabaram de se formar para estarem englobados no mundo da arquitectura aqui, não é tão fácil porque já há menos projectos tanto como do Estado, bem como do sector privado e as pessoas não estão habituados a recorrer a arquitectos para ajudas profissionais dos seus projectos, tantos residenciais como projectos de maior porte. Então, eu vejo isso como uma dificuldade. Temos que começar a tentar abrir a mente dos nossos familiares e dos nossos amigos para que vejam que ter um arquitecto como auxílio é uma bênção.
    d
    cd
  3. O que todo arquitecto precisa saber?
    Olha, antes de se aventurar, porque para mim foi também uma aventura, uma aventura que durou sete anos, é necessário ter paixão e muita dedicação. Quando estás a fazer um curso, se tu não tens paixão, tu ficas pelo caminho porque não tens energia nem vontade de continuar a aprender. E falta dedicação, pois é necessário estar constantemente a pesquisar para que se aprenda de forma independente. A universidade neste caso é uma escola, mas cabe a cada um de nós termos autonomia e independência para crescer e aprender, os professores dão-nos as bases e nós temos que pegar naquelas bases, moldá-las, durante o período da escola ou mesmo em casa, até conseguirmos alcançar o nosso objectivo, que é completar a nossa formação e quando queremos um destaque, é mais trabalhoso.
    d
    dDSC_9529
  4. Na sua visão, qual será o futuro da arquitectura diante de tanta evolução tecnológica?
    Eu acho que a arquitectura ainda tem muito para nos dar, graças a Deus, a evolução dos materiais, a evolução da forma como as coisas estão a ser construídas tem nos ajudado cada vez mais a fazermos a arquitectura de uma forma mais rápida, mais bonita e mais elegante. Então o futuro prevê muita tecnologia, digamos que em termos de interiores, o uso de equipamentos mais rápidos, mais visualmente atractivos e cá em Angola acredito que vamos evoluir cada vez mais porque quando começarmos a ter fábricas, vamos poder depender menos do exterior, então a arquitectura aí também vai-se desenvolver mais e de certa forma, o futuro está muito próspero para o mundo da arquitectura.
    d
    d
  5. Não acha que aos poucos a tecnologia vai tirando o protagonismo ou o próprio talento da pessoa em si ou a sua originalidade?
    Isso só acontece quando não existe visão, quando não existe visão tu não deixas que a tecnologia seja um auxílio. Nos temos que fazer com que a tecnologia seja uma auxílio para a evolução e não o contrário, se usarmos a tecnologia de uma forma inteligente e criativa vai ser algo evolutivo para os nossos projectos, por isso é que hoje em dia usamos muito o computador, a evolução levou-nos a sair do papel, que era algo que anteriormente os nossos professores, os nossos pais, usavam muito e hoje já temos o auxílio do computador para criar coisas que antes não era possível. E temos o exemplo da arquitecta Zaha Hadid, uma arquitecta que durante quinze anos, quase vinte, não teve a possibilidade de ter os seu projectos expostos ou construídos porque a tecnologia não estava evoluída o suficiente para chegar até aquele nível, mas graças a Deus com a evolução, ela tem a possibilidade de transformar aquilo em realidade.
    d
    d
    DSC_9454
    lguém cá em Angola
  6. Quais são as qualidades que considera indispensáveis para se ser um bom arquitecto?
    Bem, como eu já tinha dito anteriormente, tem que ser um arquitecto muito dedicado, independentemente de ter uma boa gestão, gerir-se a si mesmo, não depender dos outros para fazer o melhor e ter uma paixão enorme pela arquitectura, para não desistir.
    g
    g
  7. O estilo de vida do morador influencia na arquitectura?
    Eu acredito que em certos casos sim, obviamente que dependendo do custo de cada projecto a arquitectura adapta, mas aí é que está o grande desafio. Todo o arquitecto tem capacidade de fazer coisas brilhantes, bonitas, de qualidade, seja em qualquer valor, então mesmo que seja uma pessoa de baixa renda ou que tenha um capital financeiro baixo, existe sempre possibilidade de se fazer coisas brilhantes com a planta que a pessoa desejar, simplesmente pode haver redução de alguns materiais mas a criatividade tem que ser implementada.
    d
    f
  8. Como é a relação com os seus clientes?
    Bem, a minha relação com os meus clientes tem de ser sempre muito amigável, vejo os clientes como alguém novo. Para mim, cada cliente é como se fosse um novo namoro, em que eles não me conhecem, não sabem nada sobre mim, simplesmente ouvem e vêem, se calhar, um pequeno potencial naquilo que eu sou como arquitecta e para esse namoro dar certo, é mesmo como a relação dia-a-dia, um contacto pessoal e após o primeiro projecto, acho que é aí onde o namoro dá certo e vai para o topo, mas normalmente, até agora, tem dado certo e eles têm se apaixonado pelo meu trabalho e normalmente ficam e fazem parte da família.
    h
    f
  9. Como é que os clientes lidam com o facto de ser uma arquitecta angolana e jovem? Isso influencia no interesse de alguns clientes manifestarem o desejo de visitar o escritório ou aprofundar a amizade?
    Por isso é que eu digo que cada vez mais os angolanos estão a abrir-se para este mundo, nós estávamos habituados a trabalhar com muitos estrangeiros e quando as pessoas vêem que é uma jovem angolana e que também tem a capacidade de fazer o que um estrangeiro poderia fazer, para eles é uma maravilha. Querem conversar, querem conhecer o escritório, conhecer a equipa e querem fazer parte da família que nós somos, que é a família ARTIS AEDI. As pessoas têm recebido isso com braços abertos, por isso é que eu cada vez luto mais para podermos fazer com que os angolanos sobressaiam no nosso próprio país e internacionalmente, porque nós temos essa capacidade e sabedoria, só falta as pessoas acreditarem mais e quando as pessoas acreditam tudo é possível.
    j
    j
  10. Temos conhecimento de que já exerceu a profissão no Dubai, muitos arquitectos consideram o Dubai o paraíso dos arquitectos. Gostaríamos de saber o que é que a motivou a voltar para Angola mesmo já quase ou mesmo estando no topo?
    Realmente o Dubai é um mundo fora do comum, é um país que se nós imaginarmos, há dez, quinze anos só tinha praticamente deserto e eles conseguiram construir aquelas maravilhas com muita dedicação e visão e eu estando lá, em uma das melhores empresas do Dubai, que é a Atkins, sendo a única angolana e praticamente a única negra de lá, consegui ver que era necessário eu também aprender para poder trazer de volta aquilo que eu aprendi ao nosso país; porque se eles têm a capacidade de fazer, nós também temos e nada melhor do que eu aprender para evolução e crescimento do meu país que tem coisas brilhantes em termos de recursos naturais. Só falta nós nos dedicarmos e termos a força de vontade de ajudar para lutar e fazer as coisas de uma forma melhor, então esse foi o motivo e não quis ser só mais uma lá, quis ser alguém cá em Angola.
    e
    d
    DSC_9493
  11. JdB- Qual é o seu sentimento ao ver as suas obras concluídas?
    O meu sentimento é de alegria, fico muito satisfeita, são coisas que me alegram e deixam-me com mais vontade de continuar a lutar, com vontade de crescer e fazer coisas melhores.
    j
    j
  12. Como é que classifica a qualidade arquitectónica e urbanística da nossa cidade de Luanda e até onde vai a responsabilidade dos arquitectos nesses e em outros projectos?
    Eu acho que até ao momento nós temos evoluído, tendo em conta que saímos de uma fase de guerra bastante complicada, já temos feito muito pelo país, o governo tem-se esforçado bastante em termos de estradas e planificação de projectos urbanos para que hoje todos nós tenhamos melhores condições de vida. Mas obviamente que devíamos estar a fazer melhor e nesse caso, digo que quem vai fazer melhor, somos nós os jovens, o papel dos nossos pais e dos arquitectos anteriores. Acredito que eles deram o seu melhor e o resultado é esse que vemos, para nós os jovens conseguirmos planear melhor e fazer com que os estudos urbanos que estão a ser feitos neste momento sejam concretizados da melhor forma possível e que nesses projectos haja aquilo que é necessário como saneamento básico, distribuição eléctrica e uma habitação confortável para todos os angolanos.
    k
    h
  13. Tem algum arquitecto ou arquitecta de referência?
    Bem ,a nível internacional eu sempre fui apaixonada pela Zaha Hadid, primeiro porque ela estudou na mesma universidade em que eu estudei e isso para mim já serviu ou foi uma inspiração e segundo porque ela é mulher e um ser de muita garra, ela mesmo não tendo os seus projectos construídos no início, não desistiu, primou sempre por aquilo que é a ideia e a sua visão e quando os seus projectos foram construídos ela tornou-se numa grande arquitecta, e isso é uma inspiração para as pessoas não desistirem. Em Angola, eu gosto muito do arquitecto Costa Lopes que é um arquitecto que prima pela inovação e naturalmente os edifícios que ele está a fazer, os seus projectos atraem-me bastante, é um arquitecto que inspira.
    l
    k
  14. Acha que a profissão que exerce tem por parte da sociedade angolana o devido reconhecimento?
    Eu acho que ainda não tem o devido reconhecimento mas estamos a chegar lá e cada vez mais as pessoas estão a começar a respeitar mais os arquitectos, a valorizar mais e conseguem ver que quando têm o projecto completo, gastam menos dinheiro porque não têm que estar a reconstruir algo que podia ter sido planeado no princípio, então eu acho que isso é um reconhecimento. Quando tu queres gastar menos, tu recorres ao arquitecto, agora se quiseres te aventurar e fazer algo com o teu toque é muito natural mas a os arquitectos estão aqui para ajudar e fazer com que os sonhos das pessoas tornem-se em realidade.
    l
    j
  15. Podia nos descrever em duas palavras qual é o seu sentimento pela arquitectura?
    São tantos, mas a arquitectura para mim é criatividade e inovação porque quando tu inovas tu vais fazer com que aquilo que já foi criado anteriormente seja feito de uma maneira cada vez melhor, principalmente quando tu usas a tua criatividade. E nisso tudo tem de haver visão, eu acho que para criarmos bons projectos devemos ter visão porque senão tu tornas-te um técnico e não um arquitecto e um técnico é aquele que faz aquilo que o outro já fez, o bom arquitecto é aquele que tem visão e usa a inovação e a criatividade para a conclusão dos seus projectos.

­