Texto: Albino Tchilanda
Imagem:  António Domeneves


A cultura exprime a essência e devolve as origens dos povos. É assim que NDAKA YO WINI, musico, compositor e interprete do género tradicional “Lundongo”( estilo de dança tradicional da cultura Ovimbundu), musicalizado no estilo afro jazz, afro bit,  começa,  para  justificar à JdB o porquê da adopção do género lundongo  e o significado que as mensagens  desse género acarretam.

Adriano Xavier Ndaka, mais conhecido por Ndaka yo Wiini, de 36 anos, nasceu no Lobito, província de Benguela. Aos 5 anos imigra para a comuna do Kuyma,  no Huambo. onde é  influenciado pela cultura tradicional Ovimbundu, dela absorve os conceitos ligados à pastorícia, agricultura e danças tradicionais como Cisongue, Evemba , vulgarmente conhecido por fikô (ritual de emancipação da mulher, na adolescência ).

Ndaka encontra na música um espaço de transmissão e preservação cultural da identidade africana. Seu nome resulta da junção de dois substantivos: ndaka+ wini e dá sentido a causa que o leva a cantar por significar A VOZ DO POVO. As danças do seu estilo musical eram manifestações culturais de acto da colheita, “simbolizando o deus da natureza”,  porque acredita nas crenças africanas.

Em Cabinda viveu preenchendo o tempo a fazer pesquisas, onde depois se envolveu num grupo- ngonji  (pau em fyote), que é um instrumento de percussão, feito de ferro extraído duma árvore na floresta de Cabinda. O grupo parou de cantar e ele teve que formar um outro, com actividades filantrópicas, reunindo jovens do bairro e da rua onde viveu, ensinando-os conceitos da filosofia  e teologia africanas.

Mas a carreira profissional  começa em 2012 quando sacrifica a função de gestor de operações bancárias, em Luanda, e decide explorar os dons na musica, o desejo e a vontade de cantar falou mais alto. Sempre acreditava nos sonhos, por isso não mede esforços em aconselhar a juventude a ir em busca dos objectivos.

É coordenador de pesquisas para busca dos valores etnolinguísticos e sociais nas 18 províncias, projecto incluído num grupo científico que lidera, e com isso, torna-se ainda mais fácil a composição das suas músicas. Escreve mais em Umbundu por ser a que melhor domina. Exorta os músicos angolanos a absorver, interpretar e transmitir a essência das tradições angolanas nas suas músicas por serem porta-vozes das culturas dos povos.

Para ele,  as línguas retêm espiritualidade, logo  “a música deve ser cantada na rectidão”, entende, e com atitude para que se compreenda  a mensagem e as  emoções, por isso rouca muito nas suas musicas, “são canções que evocam os espíritos, que parece loucura aos olhos do público”, mas já há quem o perceba melhor, garante.

Embora assuma cantar para um público muito selectivo, acredita estar a atingir o âmago das pessoas, porque suas letras são feitas com o tempo e para o tempo, justificou ainda que a música “é a expressão sentimental da  subjectividade também da sensibilidade”.  Entende que o ouvinte-destinatário canta de modo a lembrar a essência e as origens das pessoas, para que ninguém mais se esqueça de onde veio.

Apesar de cantar no estilo que lhe é muito peculiar, os seus temas voltam em torno do amor, crítica social e valorização das tradições africanas, com maior realce a angolana, no caso concreto a  cultura Ovimbundu.

Para o compositor e intérprete, é preciso banir o tabu associado à  bruxaria, feitiçaria e maldade. Diferencia esses conceitos dizendo que a tradição é conservação de valores e “só é  maldade quando o homem junta a força negativa, proveniente da mente”.     

Olukwembo

Ndaka já tem titulo do seu novo álbum, é em homenagem à mãe, OLUKWEMBO, nome da mãe. O álbum vai contar com as quetas  Hoele,  Temor do amor , “Sandobwa”. Quanto  a data o músico estabelece  o mês de Setembro e Outubro para o público apreciador do seu estilo musical, mas não aceita revelar o numero de cópias .

Este também é título da música composta pela mãe e avó em 1994, deu-lha depois de ela ter acreditado nos seus resultados. O artista acredita que toda pessoa é missionária da reencarnação das vidas alheias, com sua área de saber, mesmo que sejam poucos a dar conta do assunto.   

 Quando fala valoriza muito a espiritualidade, justifica que é porque  cada povo tem o seu  ponto de partida, no caso da Africa, o seu ponto de partida é a valorização do Sagrado que são as origens e a  essência das pessoas, continua. De acordo com ele, quando isso acontece significa que a árvore genealógica das famílias está a ser preservada.

Ndongo é a dança que vem de Lundongo (música). Ndaka explica  que o  LUNDONGO, género de musica que compõe,  não é na sua essência  afro jazz, ou afro bit. É a mistura de uma dança tradicional da sua terra com o  jazz. “Soul  funk e afro bit, mas não o afro bit que os kuduristas fazem. É o inspirado do nigeriano  Fela kuti , o chamado Black President.  O Lundongo caracteriza-o por “algo muito forte”. A música é dançada sobre um loandu, que  muitas mães africanas consideram ser o berço.

Neste momento o cantor não tem álbum no mercado,  mas já tem um titulo “ o disco já está a ser   produzido cá mesmo no país e já tem data de lançamento, seu género é bem consumido  na banda como no diáspora”.

O musico é também conhecido por possuir uma mística  cabaça, que a chama de  “Mbakasilisole” (a rainha que não se ama), que contém um líquido que nunca aceita revelar, mas à Jovens da Banda  contou um pouco sobre a mística e de que é colecionador de cabaças, em memória da sua avó materna. Além da Mbakasilisole possui também o Cinwilo, com que anda sempre nos palcos, estado guardada a Mbakasilisole.

“ Vinha da formação, encontrei a minha avó muito debilitada, (no leito da morte). Fui à ela pedir a minha parte da herança. Disse-me que os primos e os irmãos já tinham levado tudo.  E encontrei uma cabaça e brinquei com a minha avó para tirar a cabaça como herança. Ela disse para não tocar, e vi que estava pesada e pensei que fosse kissangua, autorizou-me beber, logo que bebi e a avó disse que não era kisangua, afinal não era mesmo, percebi assim que bebi. E ela disse-me para não dizer o que era, em brincadeira, e prometi. Então três meses depois quando volto à casa dela, já estava morta”.

Apesar de não contar com nenhum álbum no mercado, o musico conta no seu palmarés o prémio TOP RADIO LUANDA de 2016, na categoria de jazz.

Quanto aos shows, vai estar no dia 31 deste mês na Miami Beach e no dia 7 de Abril, às 20 horas,  no pátio da Radio Mais, em Luanda.