Por: Albino Tchilanda


Filipe Bueno tem 28 anos e vive actualmente no Cunene. Enquanto miúdo frequentava a escola de Formação do Sporting Clube de Cabinda. Aos 18 anos é convocado para representar o Sporting Clube local. Mais tarde é emprestado ao Malwengo Football Clube. Em 2007 é comprado pelo Cabinda Sport. Um ano depois a carreira do atleta fracassa e o jovem teve que se deslocar de Cabinda para a província do Cunene onde montou uma pequena marcenaria para conseguir sobreviver. Hoje a oficina tornou-se numa das melhores da província e garante emprego a sete outros jovens, pais de família. Já conformado em trocar a bola e os relvados pelas madeira e pregos, Bueno conta como tudo aconteceu.

“ Já não penso em mudar de profissão. Já fui jogador profissional do Sporting Club de Cabinda. Quando jogava o meu pai sempre me exigia a aprender a profissão com ele, hoje saí do Sporting e o Malwengo Footbal Club já existe e eu estou aqui na marcenaria, tudo graças o meu pai”, reconheceu.

Depois de ter abandonado o Cabinda Sport em 2008, Bueno vai ao Cunene. Com o dinheiro que havia guardado  conseguiu sobreviver por alguns meses na casa do pai. Quando os valores acabaram o ex-futebolista, segundo contou à JdB, teve que atravessar situações menos boas. Alguns amigos afastaram-se. Tentou procurar outros clubes, mas não teve sucesso, foi então que decide trabalhar com o pai, fazendo bancos, quadros de madeira e mesas.

Em 2009 monta uma barraca de chapa e começa a fazer pequenos trabalhos à mão com ajuda do pai.Três anos mais tarde ergueu a actual estrutura, a Moveis e Decorações, localizado na rua direita do Cafitu I, a 11 km do aeroporto da província. 

Apesar de já ter erguido a pequena oficina na altura, a vida continuou difícil, não conseguia fazer o que os clientes requisitavam porque fazia muito tempo desde que aprendeu o oficio com o pai.

Como única saída para sustentar a vida, Bueno aperfeiçoou um pouco mais a profissão com o pai e foi assim que começam a ter mais clientes.

A dificuldade em conseguir madeiras tornou-se no seu maior problema e começa a viajar para o Kuando Kubango para conseguir comprar madeiras em pequenas quantidades. Hoje já consegue comprar 100 madeiras que custa 3500 kwanzas cada e lamenta ter que pagar esses valores.

“Para um aro nós precisamos duas tábuas, mas para confeccionar a porta é necessários quatro. A falta de material dificulta o trabalho”, lamentou.

O verniz, pregos são difíceis de aparecer, mas a vontade de ver garantidos o sustento da família dos seus sete trabalhadores dá-lhe mais força para persistir. Os guarda-fatos, janelas, portas, camas, armários que fabrica actualmente garante algum conforto à família.

Apesar de não ganhar muito com a humilde profissão, o profissional diz sentir- se feliz porque consegue sustentar a família e garantir o sustento a família de outros sete jovens.

A clientela varia. Momentos há que consegue vender três, quatro ou cinco portas a 30 mil kwanzas cada. Mas lamenta o facto de não conseguir satisfazer os clientes regularmente por falta de material, por isso optou pelo domicílio. 

“ Antes o cliente encontrava tudo aqui, mas agora ele vem e pede, mas não temos como o satisfazer, então  convencemos-lhes a encomendar, o que não é fácil”, exclamou.

Dos objectos que fabrica o mais difícil é o guarda-fato. Seu fabrico pode levar dois a três dias, o que não acontece com a porta, em um dia pode-se fazer três ou quatro.

O trabalho é cansativo. Começam às 8 e só terminam às 17. A qualidade peças faz com os compradores o preferem. “ Um guarda-fatos custa 120 mil e tem trinta anos de vida. Apesar do preço há muitos clientes a comprar”, justificou.

Devido a excelência, o profissional já conseguiu conquistar nos três dos seis município da província: Kwanyama, Xangngo e Curoca.

Localizada na rua direita do Cafito 1, a 10 km do aeroporto, a Marcenaria Moveis e Decorações existe há 8 anos.

O oficio que durante o sucesso no mundo do futebol desprezava, hoje tem servido da principal fonte de sustento da família . Agora com 28 anos e sem o sucesso da bola não para de agradece seu pai, pois com o dinheiro deste serviço já consegue manusear a vida. Paga o colégio dos dois filhos e mantem o sustento do lar e já construiu a própria casa. 

Nostálgico ao falar do seu clube, o ex-craque do Sporting de Cabinda, conta que saiu da formação do Cabinda Sport em 2007, por causa do treinador que, segundo acusou, não o entendia.

Depois de ter feito a formação de cassulinhas ao júnior, contava, foi emprestado ao Malwango Footebal Club e depois vendido ao Cabinda Sport, mas o desentendimento com o treinador fê-lo abandonar o clube.

“Cheguei ao júnior, o Sporting de Cabinda emprestou-me para uma equipa da Segunda Divisão, o Malwengo Footbal Club e depois fui parar ao Cabinda Sport, mas me desentendi com o técnico”, segregou.

Enquanto jogava futebol, revelou havia momentos que ajudava o pai a fazer algumas peças. Hoje graças a mercenaria terminou o curso médio em Ciências Económicas e Jurídicas e trabalha como profissional na sua própria oficina. ” Actualmente o Malwengo já não existe e eu estou aqui na marcenaria”, lembrou.

Questionado se esta arrependido por ter abandonado o futebol, o  marceneiro apenas respondeu que “apesar de no futebol ganhar-se mais , sinto-me bem aqui. O desporto, continuava, tem mais dinheiro, mas na vida tudo tem o seu tempo. Aquele tempo foi-se. Acho que não tive sorte”, lamentou.

Filipe Bueno agora com 28 anos trocou definitivamente os relvados para as madeiras e máquinas, mas não se considera um fracasso por saber fazer algo que lhe garante o mantimento de si e da sua família e aconselha outros jovens que hoje têm sucesso a investirem mais em si.