Por: Michel Candembo
Imagem: Céus


A Jovens da Banda visitou, para uma conversa descontraída, Marcela de Aguiar Cristóvão, de 32 anos. Uma mulher, diríamos, de mil ofícios que partilhou connosco algumas das suas muitas facetas, que vão desde a posição de sócia, directora criativa e supervisora de restauração até a formação em literatura, passando pelo seu ‘hobbie’ de blogger e co-proprietária da marca de beleza ‘fios&pele’.

O Petit Bistrô, local onde nos recebeu, um pequeno restaurante ao estilo francês, com mesas próximas umas das outras, valorizando o conceito de interacção e descontração que o espaço sugere logo a entrada. Questionamo-la sobre o porquê de optar pela culinária francesa, respondeu que é influência familiar, já que a avô materna é congolesa democrata, pesou, e tem irmãos que estudaram no sistema de ensino francês, juntando-se tudo ao facto de ter feito um curso de culinária em França.

No negócio da restauração há sensivelmente 8 anos, Marcela contou sobre a sua gradual escalada no mundo do empreendedorismo, desde a abertura da primeira infraestrutura na Mutamba até a uma loja de produtos de beleza nas imediações do Patriota, na Urbanização Nova Vida, e sobre as suas lutas contínuas e incansáveis, próprias de quem se dedica exclusivamente ao empreendedorismo.

Formada em língua e literatura inglesa na África do Sul, a sua relação com as letras é próxima, porém encontra sempre um equilíbrio entre ela e o empreendedorismo.

Com aproximadamente trinta funcionários distribuídos pelas empresas onde participa como sócia, Marcela afirma-se não ter dificuldades pelo facto de ser mulher e ter um número significativo de homens a trabalhar para si “fui mulher toda minha vida e não sei como é ser homem, então só conheço a minha realidade. Se calhar posso ter passado por dificuldades que um homem não passaria, mas não sei porque a única experiência que tenho é essa”, explica. Referiu que sempre teve exemplo de mulheres que foram à luta, que batalharam pelos seus sonhos. “A minha irmã é uma delas e é alguém que admiro muito, tenho recordações da minha mãe que na minha infância estudava e trabalhava, tinha os filhos, tinha a casa, então acredito que para muitas mulheres é difícil”, lembrou.

“A nossa preocupação é manter os negócios a funcionarem, empregar angolanos, mantê-los a trabalhar e deixar a nossa marca”, falou sobre as causas que a levam a empreender, dando ênfase ao facto de que o empreendedorismo é uma tendência na família “tenho duas irmãs que há pouco mais de um ano criaram um empresa, ‘Biditas’,  que vende ‘chips’ de banana e de mandioca. Elas têm sido minhas parceiras e a nossa preocupação tem sido sempre essa”.

Sobre as maiores dificuldades para empreender em Angola, explicou que além das oscilações de preços e dificuldades características do nosso mercado, há vários factores que “infelizmente” ainda são tidos em conta ao se empreender em no país, “sempre fui uma pessoa muito fechada, e comecei a perceber que em Angola para muita coisa acontecer, as pessoas têm que conhecer e serem conhecidas para que as coisas avancem. Se eu tiver uma figura pública, uma personalidade política no meu restaurante e fizer publicidade disso, sei que automaticamente vou ter mais clientes e eu sempre fui uma pessoa que lutou contra isso e para mim todos os dias essa é coisa mais difícil. Conseguir que as minhas empresas tenham mérito por si só. O mais importante é que todos os clientes sem excepção sejam bem tratados”, observa.

“Estamos há quase dez anos nisso e sinto-me satisfeita com a forma como as coisas têm evoluído organicamente” entende. “As pessoas têm reconhecido a qualidade da nossa comida, a qualidade dos textos no blog, a qualidade dos nossos serviços nesse universo da beleza. Mesmo as minhas irmãs pessoas vêem a qualidade e perguntam se foi feito aqui.”, refere. “Foi sim, foi feito em Angola, de angolanos para angolanos e as pessoas no princípio não acreditavam, então isso mostra que o trabalho árduo, continuo, feito com perseverança e persistência no fim do dia paga”, observa. A visionária motiva os demais referindo que “é complicado aceitar isso quando tens contas para pagar, quando esperavas um resultado num mês e não conseguiste, mas quando te dás conta de que os teus estabelecimentos estão a funcionar, os teus funcionários estão com o salário em dia, aí tu vês que é difícil mas vale a pena e é isso que me dá ânimo para seguir a diante”, concluiu.