Ainda no mês da mulher a JdB dá continuidade à série sobre Jovens mulheres que dão à volta por cima, desta vez contando na primeira pessoa a história de Domingas de Lourdes, Dú Gonçalves. Dú Gonçalves viveu num lar de meninas em Luanda ao sair da província do Kwanza Sul em busca de uma vida melhor. Apesar das vicissitudes, ela não se deixou vencer pelas dificuldades e hoje além de formada é uma empresária de sucesso no seu ramo de actividade.

”A minha história”

Eu sou Domingas de Lourdes Gonçalves Manuel, nasci a 29 de Maio de 1984, no Município de Porto Amboim, Província do Kuanza-Sul, onde cresci. Eu sou também a última filha numa família de oito irmãos. Tive a minha primeira experiência comercial aos oito anos de idade, ajudava a minha mãe a vender peixe seco e fubá de milho na praça. Para não comprometer os estudos nem o (pouco) rendimento de casa tinha que ir à escola no período da manhã, vendia de tarde. Assim foi minha vida até aos 15 anos.

Quando completei 15 anos, surgiu uma oportunidade como poucas. A igreja católica ofereceu-me uma bolsa de estudos, e isso me trouxe à Luanda. Ingressei no ICRA e vivi no lar da Ceast. O compromisso era estudar sem reprovar, de contrário voltaria para casa de mãos à abanar. Para sobreviver eles davam-nos um quarto (alojamento) e pagavam a escola. Para comer e vestir tínhamos de nos virar sozinhas. O primeiro ano no ICRA foi particularmente muito difícil. Para satisfazer as minhas necessidades eu era obrigada a comprar frutas na Praça do Rocha Parque para vender nos prédios do Alvalade, de porta a porta. No segundo ano, por sorte consegui um emprego como babá. Os meus chefes eram expatriados e simpáticos com a minha luta, tornaram o ambiente de trabalho acolhedor e com eles fiquei até o último ano do curso médio.

Ao terminar o médio fiz um estágio curricular de seis meses na DW, Huambo. Logo a seguir tive a oportunidade de ir trabalhar para o Centro Cultural Mosaico por dois anos. Uma ONG dos Padres Dominicanos. Durante o periodo que trabalhei também estudava de noite na faculdade de direito da Universidade Agostinho Neto.

”De volta ao negócio”

Devido a alguns constrangimentos que o estudar de noite numa instituição pública causa, fui obrigada a deixar de trabalhar. Portanto a minha única alternativa voltou a ser o negócio. Na altura em 2008, com apenas 500 USD, fui a Namíbia buscar algumas roupas para vender. As vendas correram melhor que o esperado e quando voltei à Namíbia pela segunda vez, já levei 700 USD – depois 1000 USD, 1500 USD e quando pela primeira vez peguei 3000 USD, decidi aumentar a qualidade do meu negócio. Troquei a Namíbia pela África do Sul, Portugal, Brasil e por fim Dubai.

A consciência e o tempo não me permitiam estudar Direito, então mudei de faculdade e de curso, preferi ir para a Universidade Católica e cursar Serviço Social, descobri que a minha vocação era assistência social. Foi assim também me tornei numa verdadeira muambeira. Vale salientar que foi com dinheiro do negócio que paguei também a minha casa. Em 2010 por causa dos transtornos causados pela (falta) de comunicação nas minhas viagens de negocio, com este mesmo dinheiro fui à Johanesburgo para fazer um curso intensivo de inglês por seis meses.

”Concurso Público”

Nesta rotina, estudei até terminar o meu curso superior, casei e tive filhos. Também passei num concurso público do Ministério da Família e Promoção da Mulher (MINFAMU) onde trabalho até hoje como assistente social.

”Hoje”

A crise obrigou-me a parar com a aquisição de negócios no estrangeiro. Hoje eu trabalho motivando a autoestima de outras mulheres, particularmente aquelas que apostam em usar a sua beleza natural. Vi a possibilidade de ganhar dinheiro tratando de cabelos naturais, vendendo acessórios e falando sobre o assunto. Faço isso já a caminho de 3 anos, espero por uma oportunidade para melhorar o meu negócio.

Veja na galéria de fotos abaixo o trabalho de Dú Gonçalves.