Por: Lourenço Mussango

Foto: Céus Alexandre


José Litalato Graciano, que assina pelo pseudónimo de Mauro Solitário, nasceu em 1994, na cidade do Huambo, bairro São Pedro. Nunca conheceu sua mãe. Sofreu maltrato infantil praticado pela madrasta. Foi parar à rua com 5 anos de idade, presenciou a morte inesperada de 2 grandes companheiros de rua. Desolado, refugiou-se na escrita criativa, escreveu o seu primeiro texto intitulado ‘Lágrimas Crescentes’. Título que tenciona dar ao seu primeiro livro.

Mauro Solitário não conhece sua mãe biológica, não tem memórias do seu rosto e nem do sabor do leite materno das tetas da mulher que o carregou por 9 meses em seu útero. “Não sei o que aconteceu à minha mãe. Segundo a história que ouvi da minha tia, é que o meu pai tirou-me da minha mãe quando eu ainda tinha seis meses de idade. Não conheço a minha mãe e nem sei se ela ainda existe. Nunca me explicaram nada”, desabafou.

Por sofrer constante maltrato por parte da sua madrasta, saiu da casa de seu pai. Com apenas 5 anos de idade abandonou o seio familiar, percorreu ruas e avenidas em busca de melhores condições de vida e refugiou-se na rua. “Sofri agressões físicas. Na ausência do meu pai, quando este fosse ao serviço, minha madrasta me espancava sem motivo aparente”, fez saber.

 

Sem mãe, pai e irmãos, Mauro Solitário encontrou a sua família na companhia de 3 amigos de rua. Ao relento, enfrentando o frio, a chuva, a sede e a fome, permaneceu nas ruas do Huambo por 5 anos. “Depois deste tempo, a Cruz Vermelha resgatou-me da rua e colocou-me no Seminário. Fiquei 6 meses e depois voltei à rua, porque já estava acostumado com a vida da rua. Novamente a Cruz Vermelha tirou-me da rua”.

 

Hoje, depois de abandonar a vida que levava nas ruas do Huambo, a frequentar a 10.ª Classe do curso de Ciências Físicas e Biológicas, José Litalato Graciano afirma-se como poeta e declamador, e é um dos rostos mais conhecidos do Projecto Okutiuka. Garantiu que conheceu a mãe Sónia Ferreira (mentora e directora do Projecto) quando tinha 11 anos de idade. Sua entrada no Projecto Okutiuka deu-se por intermédio da Cruz Vermelha. Tinha 11 anos de idade. Nessa altura já escrevia. “Escrevia mais prosa do que poesia”, sublinhou.

 

José Litalato Graciano aprendeu a ler e a escrever na rua, sem nunca ter passado  em uma escola. A rua foi a sua sala de aula, e os amigos de rua seus professores. “E o gosto pela literatura começou também na rua. Sempre que fosse apanhar comida nos contentores, aproveitava também ver recortes de  jornais e livros. Lia e procurava entender os textos”, reiterou.

Com alguma emoção no olhar, lembrou que o seu primeiro texto falava sobre a perda. O seu primeiro texto, na altura escrito em prosa, intitulava-se ‘Lágrimas Crescentes’. “É um texto inspirado na dor, no vazio causado pela morte de dois amigos e companheiros de rua. Na rua, eu fazia parte de um grupo formado por 4 crianças. Lembro-me que numa manhã normal,  depois de acordar vi-me diante dos cadáveres de dois dos meus amigos. Sem indícios de alguma doença, António e Isaac partiram para eternidade”, lamentou.

Hoje, depois de muitos anos distante das ruas, José Litalato Graciano afirma que a morte dos dois amigos ainda o perturbam. Eram tão amigos e íntimos que não consegue esquecer o que com eles viveu. Por causa das perdas, tornou-se numa pessoa muito reflexiva, silenciosa, que está mais no seu canto a pensar e a escrever. “A escrita é o meu grande refúgio e consolo”.

Com cerca de 150 poemas, Mauro Solitário pretende homenagear os seus dois amigos, já idos, com a publicação do seu primeiro poemário intitulado ‘Lágrimas Crescentes’. O manuscrito conta cerca de 40 poemas num total 72 páginas. Pediu-nos que apelasse aos empresários, amantes da cultura e literatura nacional a apoiarem-no na materialização deste seu sonho. “Apoiem o meu livro. Não se vão arrepender. Deus me tem dado força, dom, preciso de uma mão amiga para publicar o meu livro”, apelou.

Ao terminar a nossa entrevista, não deixamos de perguntar que figura Sónia Ferreira representa na vida de José Litalato Graciano. “Significa perfeição feminina! Uma mãe extraordinária. Quero que ela continue a dar esse exemplo de humanismo ao mundo”.