Por: Lourenço Mussango
Imagem: Céus Alexandre


Júlio das Rosas Paquete, empresário conhecido e respeitado na cidade do Huambo, encerra em si uma história marcada pela guerra, perda, sofrimento e superação. Viveu em campo de deslocado de guerra, lavou carro no Governo Provincial de Luanda e vendeu pães no mercado Rock Santeiro.

Júlio começou a actividade empreendedora, segundo contou, em 1992. “Depois do reacender das armas na cidade do Humabo, fui forçado a caminhar até Benguela a pé”, recordou. Em Benguela ficou num campo de refugiados. Dada instabilidade na região, teve de seguir de canoa para o Sumbe, para depois, de autocarro, rumar para Luanda, deu a conhecer.

Em Luanda, junto da família, começou a perceber que a realidade na grande cidade era diferente daquilo que estava acostumado a viver na cidade do Huambo. Viu-se obrigado a adaptar-se à realidade luandense. Começou a lavar carros.

“Lavei o carro do tio do meu amigo Gabi. O tio gostou do nosso trabalho e informou-nos que poderia arranjar uma brecha no Governo Provincial de Luanda. No dia seguinte caminhámos com os nossos materiais até o GPL. Lá deram-nos um espaço e assim começou a minha jornada como lavador de carros”. Nessa altura Júlio das Rosas já tinha 15 anos. A lavagem de carro mostrava-se ser um negócio rentável. Começou a pensar em crescer, porque apesar de ter família em Luanda considera-se refugiado.

A pretensão de crescer fê-lo aliar-se à mãe de um amigo seu que fazia pão. “O forno dela apresentava algumas dificuldades, então nos propusemos a fazer uma parceria. Arranjamos um novo formo e em melhores condições, e assim começamos a produzir pães”. Passou a conciliar a dupla actividade. De noite maçava pães, de manhã vendia-os no mercado do Rock Santeiro. Depois rumava para o GPL lavar os carros. “Assim conseguia me suster”, disse.

Depois do Memorando de Entendimento da Paz em Angola, tão logo o Governo retomou a província do Huambo, Júlio das Rosas abandonou Luanda e os negócios que fazia. Regressou para a terra natal. “Quando cheguei, o Huambo estava desfeito. Irreconhecível”, foi então nessa altura que lhe surgiu a ideia de comprar uma câmara fotográfica para captar aquele momento de destruição, “porque tinha a certeza que Huambo renasceria das cinzas”, sublinhou.

Com os valores que trazia de Luanda, Júlio das Rosas comprou uma câmara e deu início actividade de fotógrafo. “Fui fazendo fotos em edifícios destruídos pela guerra.  Fiz fotografias durante dois anos, e tínhamos de revelar as fotos em Luanda”, lembra. Um pouco mais tarde, conheceu um amigo vietnamita que fazia revelação e edição de fotos e timbrava em camisolas. Dois anos depois, já com um computador e uma impressora, começaram a produzir localmente. “Foi nesta altura que juntei a fotografia à timbragem de camisolas”. O negócio caseiro começou a ser rentável. Era um produto novo, aprimorou e cresceu, tendo com isto criado a sua primeira empresa: um atelier de artes gráficas e publicidades.

O ex-refugiado de guerra, lavador de carros e vendedor de pães no Rock Santeiro, é hoje um exemplo de vida e modelo para os jovens angolanos residentes na província do Huambo e não só. O patrono do grupo ‘La Rose Empreendimentos Lda.’, disse-nos que no âmbito da diversificação da economia, encontra-se a consolidar o seu grupo empresarial. “Já temos 3 empresas, a caminho de constituir a quarta. As empresas actuam em áreas auxiliares umas das outras, a fim de termos um crescimento significativo”, observou.

Com o  grupo  ‘La Rose Empreendimentos Lda.’ Júlio das Rosas garante 50 postos de trabalhos aos jovens da cidade do Huambo. Sendo que 25 têm os seus empregos permanentes, e 25 prestam serviços temporários. Conta com um salão de festas com capacidade de 450 pessoas, presta serviço de buffet e serve em festas. Possui também uma empresa no ramo tecnológico, onde vende motores para portões, GPS para viaturas, câmaras de vigilância, cercas elétricas, soluções e consumíveis informáticos.

“As ambições são grandes”, revelou, tendo acrescentado que estão por abrir um linha de confecções de roupas. Preferencialmente uniformes escolares. “Gostaríamos de ser uma referência a nível da região (Huambo, Benguela e Bié)”, confessou, “a fim de deixarmos de depender um bocadinho das importações. Já saímos dos papéis e estamos a abastecer alguns clientes. Estamos no processo de ampliação do projecto”.

A história de vida do ex-refugiado de guerra, lavador e carros e vendedor de pães no Rock Santeiro tem inspirado novos jovens empreendedores. Júlio da Rosas finalizou apelando aos jovens a terem fé, humildade e coragem. “Tenham ousadia e coragem de materializar aquilo que pensam. Deixem de falar muito e passem para a execução. Mas devemos ser humildes para que os outros nos vangloriem”, concluiu.