Por: Lourenço Mussango


A jovem artista Lícia Santos nasceu em 1998, numa cidade pequena que fica entre o mar e o deserto. Namibe é o seu berço, o solo onde cresceu e estudou, onde surgiu a vontade e a necessidade de explorar novos horizontes. Depois de residir e estudar em Cape Town (África do Sul) e em Figueira da Foz (Portugal), hoje com 19 anos, Lícia Santos vive em Londres (Inglaterra), onde partilha os estudos com as belas-artes, a dança e o canto.

 

“Sou o resultado de todas essas experiências, boas e más, que marcaram o meu caminho e amanhã, quero ser o futuro resultado de toda a dedicação e amor que ponho naquilo que faço!” Observou.

 

Apaixonada por diversas áreas do mundo das artes, para Lícia, as belas-artes, a dança e o canto manifestam-se na sua vida com a mesma intensidade e em perspectivas diferentes. “Para que possa existir arte e vida em mim, preciso de três elementos: as belas-artes, a dança e o canto. Todas elas libertam um lado diferente em mim, mas expressam de igual forma o que me vai no pensamento e no coração”, reiterou.

 

A arte surge sempre de um acaso surreal que, à priori, não se precisa saber o que é ou encontrar uma razão, simplesmente sentimo-la. Assim surgiu a arte na vida de Lícia Santos. “Abracei à arte quando era pequenina e ela nunca me largou. Claramente, deve ter havido um momento em que tudo se começou a desenvolver… Posso dizer que, a arte de um modo geral, foi algo que se foi desenvolvendo em mim muito naturalmente!”

 

Considera-se uma pessoa muito curiosa, que gosta de aprender coisas novas.  As áreas com que mais gosta de trabalhar são: o desenho, a pintura, a escultura, a fotografia, a instalação, a dança e o canto. Recentemente ganhou grande interesse por design espacial e arquitectura. “Adoro o facto da arte poder juntar-se à áreas completamente diferentes como a ciência e a tecnologia”. Salientou que nutre grande admiração por artistas e pessoas que tenham a humildade e o interesse em absorver habilidades ou conhecimentos de pessoas noutras profissões. “Na minha opinião, a interdisciplinaridade torna o mundo mais rico!” ,concluiu.

Aprecia dança, desde as mais clássicas às mais contemporâneas, como o nosso Kuduro. Porém, nutre uma grande paixão pelo Ballet Clássico. “Foi em Portugal, aos 16 anos, que comecei a frequentar a Academia Roysel Alfonso e onde pude profissionalmente desenvolver técnicas em Jazz e Ballet. Durante o tempo em que lá estive, também tive a oportunidade de participar no ‘Dance World Cup’, por duas vezes. Segundo Lícia Santos, o canto faz parte do seu dia-a-dia, e surgiu na sua vida por influência do irmão ligado à música. “O estilo que mais gosto de cantar é o Jazz! Sinto-me com mais liberdade, talvez por trabalhar melhor com os tons graves do que agudos. Gostaria futuramente de ter uma conta no YouTube com covers, e quem sabe, com músicas minhas”, sublinhou.

Uma obra de arte tem muito a dizer, seja pelo conceito, contexto ou pelos sentimentos que transmite. Perceber uma obra de arte é saber observá-la além da superfície! Questionado sobre o que seus quadros transmitem, Lídia acrescentou: “Neste momento, os meus trabalhos expressam aquilo que sinto em relação ao que se passa no mundo, tanto a nível sociocultural como político. Vivemos num mundo cada vez mais corrido e talvez só a arte nos faça parar por uns minutos para observar o que se passa a nossa volta e apreciar a vida doutra forma.” Precisou.

 

“Arte tem de traduzir aquilo que somos! Tanto o que sentimos como o que pensamos, mesmo que isso signifique ter o mundo todo contra nós. Nunca tive receio de expressar aquilo que sinto ou o que penso sobre assuntos mais delicados ou polêmicos.”

 

Apesar de ser muito nova e ter uma trajectória artística apenas a começar, Lícia Santos recorda que uma das obras que marcou o meu percurso, enquanto esteve a viver na África do Sul, foi o retrato do Nelson Mandela pintado três meses antes da notícia da morte deste símbolo da resistência ao Apartheid. “Mais tarde, em nome da escola em que estudava, foi exposto numa Galeria em homenagem a Nelson Mandela.” Acrescentou dizendo que, em Portugal, viveu três momentos importantes. O primeiro, foi quando ganhou o concurso internacional realizado pelo ‘Dance World Cup 2015’, e teve o prestígio de desenhar o logotipo que seria usado em T-shirts, bolsas, posters, etc. Outro momento especial, foi quando a academia de dança em que frequentava convidou-a para fazer o desenho que estaria nos bilhetes e placar de publicidade para o show anual de natal da academia. O terceiro, foi quando participou num concurso nacional chamado Escolíadas.  “Revolução foi o tema abordado e foi com a obra ‘Luaty Beirão’ que ganhei o primeiro lugar na área das artes plásticas. Foi uma honra não só representar a minha escola mas também poder falar sobre um assunto que dizia respeito aos portugueses e angolanos.” Recordou.

 

“Em Angola, a obra de que mais me orgulho foi uma pintura que fiz, quando tinha mais ou menos 6 anos. Numa folha A4 misturei corantes coloridos com cola branca e massa esparguete. Ainda me lembro exactamente de como fiz.” Sorrindo, garantiu-nos que essa foi a obra que marcou o início de sua carreira artística.

 

Hoje, depois de alguns êxitos na vida pessoal como artística, a viver em Londres, Lícia conseguiu uma oferta numa das melhores universidades de arte e sente que a educação e a cultura que está a receber terá um grande impacto na construção de uma carreira profissional e na descoberta da sua identidade como artista.

  

“Serei uma eterna sonhadora! Para mim, os sonhos fazem parte da vida e não de certas faixas etárias! Contudo, é necessário trabalhar arduamente para que os mesmos se tornem realidade.” Disse. Dentre os mais diversos sonhos que possui, Lícia pretende tornar-se numa fonte de inspiração e exemplo para as próximas gerações. “Um dia, quero poder levar às crianças/jovens de Angola tudo aquilo que estou a absorver do mundo!” Observou.  Concluiu dizendo: “…quero lutar para que as próximas gerações possam crescer com a arte cultivada nos seus corações e possam assim contribuir para uma Angola melhor, com mais conhecimento e mais arte!”