Por: Lourenço Mussango e Albino Tchilanda


 

 

O sol já faz o seu cortejo luminoso. O azul-claro do céu sorri alegremente sobre Luanda. O movimento é intenso, rostos e vozes expressam a correria diária. Carros topo de gama e vários ‘Acaba de me matar’ fumegantes obedecem o trânsito lento. A escassos metros da escola Ché Guevara uma jovem adolescente com cerca de 12 anos, à luz do dia, atrai para si a atenção dos transeuntes.

 

Os Congolenses rende-se ao ser impoluto que cospe uma série de moedas de valor diverso. O público está mais atento a moeda de 20 kwanzas, aquela que os mais vijus estão a derreter para fazer jóias. O pânico e a curiosidade instalam-se. Zungueiras e lotadores de carros que já conhecem as actividades inusitadas da menina prodígio, sussurram mujimbos que dão conta que ela também se transforma em jibóia.

 

A menina do Palanca, conforme é chamada, tornou-se a sensação do momento e por onde passa o seu perfume mágico entretém e preocupa luandenses. O insólito capta a atenção de todos: do mais culto ao mais ignorante ser mortal.

 

Isso mesmo, por volta das 8 horas de um desses dias recentemente, quando um jovem jornalista que seguia em direcção ao centro da cidade notou um  aglomerado de gente, aproximou-se para saber o que se estava a passar, lá estava a “menina prodígio”, na inocência dos seus 12 anos, bonitinha, diga-se, aparentava ter 1,45 metros de altura, cabelo à carapinha, semblante animador, olhos brilhantes; com vestido preto.

 

De pés descalços e empoleirada, estava acompanhada de um outro menino, que transportava seu cãozinho ao ombro, era o seu irmão. Entre medo e curiosidade, o repórter aconchegou-se ainda mais para ouvir em primeira pessoa a rapariga. Sentindo-se lisonjeada por atrair a atenção de todos que por lá passavam, pediu uma moeda.

“Dão só uma moeda e vão ver”, desafiou o público expectante. Deram-na a moeda, afinal todos queriam confirmar os rumores das pessoas. Depois de ter recebido, atirou-a na boca, quando voltou a abrir a boca…algo insólito. Uma grande quantidade de moedas de valor diverso saía da boca dela e tilintavam no chão, podiam encher uma caneca normal.

 

“Como consegues fazer isso?” Perguntavam-na atônitos. Serena, a menina do Palanca, tranquilizou-os com o seu sorriso amarelado, e acrescentou: “Isso não é nada, se me derem 2 mil kwanzas, posso virar jibóia”!

 

De rompante, o tumulto ganhou proporções incontroláveis. O empurra-empurra atiçava os nervos daquele público que não arredava o pé. Os insultos não feriam a sensibilidade da menina que continuava a cuspir moedas. O pânico era tanto que não tardou a polícia chegou e interrompeu o cenário, levou a miúda à esquadra móvel a alguns metros da ponte, no sentido Viana-Primeiro de Maio.

 

Inconformado com a situação o jovem jornalista procurou alguém próximo a ela, foi quando uma das suas vizinhas, meio tímida, como é costume nas reportagens, depois de alguma persistência, soltou algumas palavras.

 

“Para mim isto já não é novidade. Ela é minha vizinha e vive com a avó que lhe ensinou a fazer tudo. Ela nunca fez mal à ninguém lá no bairro… pode virar Jibóia, basta dar dinheiro,” declarou a vizinha.

 

O cenário suscitava tanta curiosidade que levava algumas pessoas a se reunirem junto à esquadra, foi quando a patrulha chegou e ela foi levada à esquadra por de trás do campo do Petro Atlético de Luanda, onde depois de certa persistência em saber mais sobre o destino da miúda, exposto ao sol abrasador e com alguns insucessos, o jovem repórter seguiu viagem ouvindo o “Bajú”,  de Paulo Flores.