Por: Michel Candembo 


A política activa em Angola é sem sombra de dúvidas uma das ocupações que exigem maior responsabilidade da parte dos seus fazedores, tendo em conta os relativamente poucos anos de país e de democracia, o contexto sócio-político em que vivemos e outros factores importantes. Todavia não é novidade a aparição de jovens politicamente activos que deram e dão o seu contributo nas mais variadas esferas que se possa imaginar. Na Assembleia Nacional (ou na antiga Assembleia do Povo), nomes como o do falecido deputado André Domingos ‘Pací’ ou Rui Vasco (deputado pelo ciclo províncial de Benguela) ambos na casa dos vinte, na altura em que assumiram tais responsabilidades, são alguns dos exemplos que lembramos.

A par dos supracitados, e apesar de se encontrarem em tempos e forças partidárias diferentes, surge Manuel Armando da Costa Ekuikui, jurista de formação, que com 28 anos foi recentemente eleito como representante do povo no parlamento. É o deputado mais jovem à AN nesta legislatura. À JdB, concedeu uma entrevista detalhada em que abordou sobre as suas aspirações, desafios e responsabilidades decorrentes do seu mais novo ofício.

Apesar de fazer política activa há sensivelmente 10 anos, não pôde deixar de referir que nasceu num contexto de guerra e viveu por muito tempo numa zona controlada pelo seu partido actual, tendo desde muito cedo despertado o interesse por estas questões. “Participei activamente na campanha do meu partido em 2008, passei a membro do comitê nacional da JURA (braço juvenil da UNITA) e em 2015 fui eleito membro da comissão política, que é o órgão máximo do meu partido. Coordeno os municípios de Belas e de Talatona e fui agora em 2017 indicado para ser o cabeça de lista em Luanda, sendo nesta condição que cheguei à Assembleia Nacional”, contou.

“Fui eleito o deputado mais jovem e para mim é sinónimo de grande responsabilidade, de maiores cuidados, porque se estamos lá é porque alguém acreditou, alguém votou, mas não estamos para representar este ou aquele, nós estamos para representar Angola” frisou, acrescentando ainda que a AN deve exercer a sua função de legislar, virada maioritariamente para os cidadãos menos favorecidos, criando e aprovando leis que os protejam, dentre as quais a ‘lei de bases da juventude’ e um estatuto para a mulher zungueira.

“Política é missão, não é profissão portanto não se pode ir para a política para fazer fortuna ou conseguir meios (financeiros). Vai-se para a política para servir e fazer história num curto espaço de tempo e político que é político marca a história como os grandes exemplos que sigo. Os cargos e mandatos têm fim e a verdadeira honra está em ser escolhido entre 24 milhões de habitantes, abrir garrafas de champanhe porque ficou ministro ou deputado é falta de noção do peso da responsabilidade”, argumentou, quando questionado sobre os eventuais benefícios financeiros que a sua posição actual poderá trazer. “Não vou para a política para fazer fortuna porque sei ganhar dinheiro de forma honesta. Perdi a minha mãe aos 10 anos e nesta altura aprendi a ser homem e lutar pelos meus irmãos e tive a minha casa e o meu primeiro carro comprado com o meu esforço desde muito cedo”, revelou. “De nada me interessa estar bem, estar de fato e gravata num escritório e o cidadão que eu julgo representar não se sentir representado. É difícil ir para um espaço público e encontrar um deputado ou um ministro e sinceramente não percebo o que lhes torna tão especiais a ponto de se distanciarem assim do povo” falava sobre a relação entre os eleitores e os políticos que os representam.

Sobre as notícias recorrentes de cidadãos que mudam de partido e passam do dia para a noite a defender ideologias diferentes, o mais novo deputado entende: “Nós temos que quebrar regras e abrir a porta para uma Angola inclusiva. Para convidar um cidadão de um outro partido a fazer parte de um governo diferente, ele não precisa de ir para a televisão e dizer que mudou de partido, pode continuar a militar no mesmo partido porque irá servir e gerir os recursos de Angola. Quando vestes a capa da renúncia e vais para a televisão perdes toda a dignidade e isso é uma prática que temos que abandonar”, refere.

“Qualquer um se sente orgulhoso por ver um familiar a vencer uma etapa. A política é um desafio porque dizes uma coisa que não agrada a alguém e podes apanhar uma bala na rua, mas vivi num contexto de guerra e não tenho medo de abraçar desafios”, remata. Revelou que a notícia da sua eleição deixou a família orgulhosa como todo mundo ficaria, “mas não abriram champanhe” disse em meio a risos e em tom mais sério acrescentou: “a minha família orgulha-se porque a minha história tinha tudo para dar errada pela forma como começou. Enterrei a minha mãe sem caixão, num buraco feito por um animal e foram tempos difíceis”.

“Nós ainda continuamos a nos olhar como inimigos, e não somos. Enquanto angolanos temos pensamentos diferentes mas convergimos num ponto, queremos lançar Angola para o progresso. O que quero é viver num país justo onde haja igualdade de oportunidades para que cada um  tenha o mínimo para viver sem razão de invejar o outro”, frisou.

Sobre a diferença de 56 anos entre o mais novo deputado, ‘Nelito’ Ekuikui, e o mais velho, França Van-Dúnem, o jovem entende que é uma composição necessária, porque apesar de ter a irreverência característica da juventude, também precisa da experiência dos mais velhos. “Ele um dia já teve a minha idade e o que me interessa é saber sobre os caminhos que trilhou. Orgulha-me estar ao lado dele e gostava muito de aprender com ele, principalmente sobre o percurso de vida”, confessou.

‘Nelito’ aconselha os jovens que queiram entrar para a política, devem ser os próprios a ir atrás das suas realizações e buscar por oportunidades. “Ninguém foi buscar-me à casa, eu tinha as minhas aspirações e fui atrás, alguém que chega até a Assembleia encontra obstáculos mas é necessário coragem para os transpor”. “José (figura bíblica)”, explicou, “era um homem de referência no Egipto e passou por muitas dificuldades até atingir o que pretendia, inclusive intrigas no seio familiar. A nossa Assembleia será jovem quando a juventude entender a sua importância e tomar a iniciativa e para isso precisamos de referências, hoje temos o Nagrelha e outros que fizeram com que todos a um dado momento quisessem fazer kuduro e precisamos disso na política, jovens de referência. Todos os jovens patriotas com responsabilidade e sentido de Estado são bem-vindos e devem dar o seu contributo“, concluiu.