A arte, na sua múltipla expressão, é a sinfonia que dá sentido aos sentidos. É o gozo que se espalha na silhueta de uma tela ou consciência dos seres emancipados, despidos de tabus e preconceitos. E, por hoje, fomos atrás de uma figura nascida na década de 90, na Huíla, que desde tenra idade sempre teve uma inclinação artística voltada para as artes plásticas: especificamente a pintura. André Malenga, jovem da Banda residente em Portugal, assume-se como um ser pensante simples vivendo nesta galáxia intrínseca a via láctea.

A MINHA PINTURA É POESIA E PROSA, É MÚSICA QUE RI E CHORA A ÁFRICA EM ESTADO PASSIVO E QUENTE. É ARTE EM LATO SENSU!

A Huíla, solo onde Malenga nasceu, pintou a vida do artista plástico com memórias inesquecíveis e representa as raízes que moldaram a identidade deste homem de cultura que tem levado o nome de Angola a Portugal e França. André afirma que a terra do Cristo Rei configura 80 % de sua idiossincrasia.

A HUÍLA REPRESENTA O ESPAÇO QUE ME VIU NASCER E CRESCER. É PARTE DA MINHA HISTÓRIA. NELA TENHO CONSERVADA MINHAS MELHORES MEMÓRIAS! MINHAS VIVÊNCIAS. FAMÍLIA, MEUS AMIGOS, MEU PASSADO, PRESENTE E FUTURO.

JdB. A pintura é a tua grande paixão?

AM – Paixão é um termo limitado para expressar a representatividade da pintura na minha vida. Digo-te que a arte de pintar é a razão essencial, substancial e fundamental para minha vida. É um dom especial que Deus me concedeu para que, por meio dela, pudesse

tocar e alcançar as almas das pessoas. A arte é tudo para mim. Nenhuma outra atividade poderá substitui a pintura na minha vida.

JdB. Quando e como começou a tua experiência nas artes plásticas?

AM – No princípio apenas desenhava, isto com auxílio e incentivo do Cláver Cruz… Recordo-me que na primeira classe, uma vez a minha professora fez-me um peditório para que representasse um mamífero ruminante; especificamente um boi. Este foi o primeiro desenho que apresentei ao público. Recordo-me que todo mundo maravilhou-se. Mas pintar como tal, comecei no ano 2005. Ainda pequeno comecei em contraplacado, porque era a noção que eu tinha de uma tela. Pintava em contraplacado com tintas não profissionais, porque eu não tinha nem sequer uma noção básica para se efectuar uma pintura em tela. Tomei iniciativa de apresentar as minhas pinturas em contraplacados ao Ministério da Cultura. Quando lá cheguei encontrei os mestres que trabalhavam na disciplina de escultura, eles maravilharam-se e eu também! De seguida manifestou-se um mestre que se chama Tomás. Este por sua vez disse que eu era e que iria apresentar-me ao Sr. Padú.

O PADÚ TE VAI TORNAR UM GRANDE ARTISTA”. DIZIA ELE. SÓ QUE PADÚ TINHA VIAJADO PARA LUANDA E NINGUÉM SABIA DISTO. NO ENTANTO FIQUEI QUASE UM MÊS ESPERANDO. E ENQUANTO ESPERAVA, APRENDIA ESCULTURA COM OS MESTRES. E EM JUNHO DE 2006 COMECEI A PINTAR COM O PADÚ.

JdB. Padú hoje representa o quê para ti?

AM – Padú é um pai, um amigo e instrutor. Alguém presente em todos os momentos quando o assunto é referente à arte. Respeito-o imenso. Transmitiu-me, tanto em teoria como em prática, todas as técnicas e todos os estilos que ele sabia. Partilhou comigo muitas das suas pinturas especiais, chegando a conceder-me a honra de pintar consigo trabalhos que lhe eram individuais. Tenho para com ele um dever moral e benigno, que se espraia até as futuras gerações que lhe são sanguineamente ligadas.

JdB. Quais são as técnicas que mais usas quando pintas?

AM – Olha quanto às técnicas são várias, muitas vezes deixo-me levar pelo que me vem à alma. No entanto, eu pinto imensas estéticas; uma variedade. Que vão desde técnicas mistas às mais simples. Realismo, orfismo, cubismo, abstracionismo, técnicas mistas, colagens e instalações artísticas. De uma forma natural exploro-me bastante. Gosto de me surpreender.

JdB. Os teus quadros reflectem a poesia e a quentura do Continente Berço. Para ti, às cores quentes são mais expressivas e porquê do uso habitual destas na tua arte?

AM – Sim. As minhas pinturas visam essencialmente explanar ou representar as origens as histórias (fontes orais), as músicas (folclore), a literatura e as vivências dos vários grupos étnicos, o quadro político e socioeconómico do lugar de onde eu venho (Angola) e de uma forma geral África. A minha pintura é poesia e prosa, é música que ri e chora a África em estado passivo e quente. É arte em lato sensu! Quanto a composição e a frequente presença de cores quentes, isto é como um mistério e só sei que as uso constantemente e não consigo fugir disto. Mas também é uma marca dos artistas africanos. Se deixo de pintar a África, eu não existo. Não sou nada!

JdB. Os teus quadros hoje são expostos em Portugal e França. Como tem sido essa experiência?

AM – Realmente os meus quadros fazem-se presentes em várias regiões do mundo. Isto é muito bom para qualquer artista, porque promove e divulga o seu trabalho e nome para outras culturas. A exposição dos meus quadros nestes países tem sido uma experiência boa, na medida que tenho tido grande feedback por parte de quem observa. E como consequência, deixa-me lisonjeado. É um sentimento de orgulho, pelo facto de estar a divulgar e representar bem o país. Sinto-me um bom filho de Angola!

JdB. Sentes que o teu trabalho é mais valorizado na diáspora do que em Angola? Porquê?

AM – Em relação a valorização do meu trabalho afirmo-te que sempre trabalhei para o mundo. Não gosto de fazer comparações. Gosto de deixar as águas fluírem. Trabalhei e trabalho no sentido de ver o meu trabalho valorizado em qualquer parte do mundo, e assim tem sido. O mesmo respeito que o meu trabalho tem em Angola, julgo ser o mesmo

aqui na Europa. A valorização é notória. É algo que aumenta todos os dias. O meu traba-lho é valorizado em todo mundo, por isto tem atingido estas dimensões.

JdB. Sei que para além de trabalhar estás a fazer formação. Que formação é essa e como tem sido?

AM – Dizer que o motivo principal que me impulsionou para cá é a formação. Esclarecer que estou a fazer a licenciatura em turismo na Universidade Católica Portuguesa. E tem sido uma óptima experiência. Porém, há algumas dificuldades visto que estou aqui por conta de familiares e não por apoio de organizações. As dificuldades são mais de ordem financeira e psicológica. Tendo a casa, universidade e seguro de saúde por pagar…tem sido difícil carregar este sonho sozinho na terra dos ‘outros’ e sem kitade. Mas tenho tido o apoio moral da família e dos meus amigoirmãos. O Ildo Espinha, sobretudo.

JdB. Quais são os reais ganhos que a arte trouxe a tua vida?

AM – A arte me tem presenteado de muitas formas e maneiras. Ela é uma disciplina nobre e dá-nos o essencial para perceber o que os comuns não podem ver. Faz-nos entender coisas que o senso comum não percebe. Falo de coisas que transcendem a mente humana presa no horizonte.

Umas das coisas que ganhei é capacidade de expressar, comunicar, ensinar, ouvir e compreender os outros seres vivos e os humanos. Portanto, com a arte aprendi a nunca apontar o dedo ao próximo e nem julgar ninguém. Ensinou-me a ser um homem pacífico, de temperança e bondade.

Ganhei riqueza imaterial, família e amigos que me têm sido importante o tempo todo. A arte despertou em mim um grande amor pelas pessoas da Banda e do mundo. Mas espero que ela também venha a me dar muito kumbo para que eu venha a realizar os meus maiores desejos de ser um cidadão que apoia os outros mais carecidos em termos de bens materiais e amor.

JdB. Acreditas que tem sido Deus a traçar o teu destino?

AM – Como não acreditar em Deus!? Ele tem feito grandes obras na minha vida. Tenho visto Deus operar sinais o tempo todo onde quer que eu vá! Existem coisas que Deus é quem escolheu para as nossas vidas. São planos particularmente dEle para o bem de nós próprios.

ELE FALA DISTO NA SUA PALAVRA: “EU BEM SEI OS PENSAMENTOS QUE TENHO DE VÓS, DIZ O SENHOR, PENSAMENTOS DE PAZ, E NÃO DE MAL, PARA VOS DAR O FIM QUE ESPERAIS.” JEREMIAS 29:11. MAS É BEM VERDADE QUE ELE COMO BOM PAI QUE É, TAMBÉM DÁ-NOS A FACULDADE DE SONHARMOS OS SONHOS QUE QUISERMOS. MAS EU ACREDITO QUE ELE É QUEM FAZ O MEU CAMINHO!

JdB. O que diz a tua arte?

AM – A minha arte visa essencialmente identificar problemas, criticar, sugerir e implementar ideias novas capazes de proporcionar qualidade de vida em todos os sentidos; principalmente na minha nação Angola. A minha arte não importa-se apenas com aspectos daquilo que é o belo, muitas vezes ela aparece como uma sátira social, quando o contexto o faz emergir do silêncio existencial. Isto faz de mim um grande artista!