Na sociedade angolana é uma grande alegria, quase uma honra para algumas famílias quando os filhos(as) casam-se, a partir de uma certa idade geralmente na casa dos 20 e tal anos após o ensino superior (para quem o faz) ou não, começa a pressão e as perguntas sobre a existência ou não de um(a) namorado(a) visando um futuro casamento. As pressões para que o casamento aconteça podem vir de vários lados sobretudo da família, amigos e até da própria sociedade em si que olha para o casamento como uma obrigação do indivíduo adulto e não como uma escolha pessoal e opcional. Os seres humanos adultos podem ter vários estados civis a saber: solteiro(a), casado(a) pode ser no civil, no religioso ou em união de facto, viúva(o) e divorciada(o).

A Constituição da República no seu artigo 35º alínea 2 diz “Todos têm o direito de livremente constituir família nos termos da Constituição e da lei”1, esta é a nossa condição de vida, o casamento é um direito, não um dever, a união é voluntária não somos obrigados a casar nem a ter filhos pela vontade dos outros, o casamento é uma decisão muito importante e deve ser tomada por iniciativa e vontade própria, até porque quem vai viver as alegrias e enfrentar os problemas do mesmo seremos nós e não os outros, quem vai cuidar dos filhos seremos nós, não os outros.

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A decisão de viver com outra pessoa requer maturidade física, mental e psicológica por isso é que a lei angolana só permite casamentos entre pessoas maiores de 18 anos, salvo em situações excepcionais são permitidos casamentos entre pessoas de 16 anos de idade com autorização dos pais, tutores ou quem tiver o menor a seu cargo.2

A principal motivação para um casamento deve ser o verdadeiro amor entre os namorados, digo verdadeiro amor pois este é que confere paciência para “suportar”, perdoar os defeitos do outro e enfrentar os problemas da vida a dois sem desistir logo à primeira dificuldade.

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Em condições normais ninguém casa-se para divorciar-se em seguida, embora haja cada vez mais divórcios, as pessoas quando casam é porque têm convicção que irá durar; para o cristianismo e quase todas as outras religiões o casamento é idealizado para ser eterno, por isso, existem alguns cursos para noivos que ensinam o melhor caminho para um casamento duradouro e feliz. Para quem quer casar-se e acha que encontrou a pessoa ideal o namoro deve ser encarado como uma fase de conhecimento profundo do outro e de nós mesmos. Sou da opinião que o namoro não deve ser muito breve (abaixo de nove meses), pois deve dar tempo para que haja convivência suficiente para saber se os dois são compatíveis em muitos aspectos, mesmo em namoros de 10 anos podemos não conhecer totalmente a outra pessoa, existem casais que viveram juntos 30 anos e no fim, descobriram que não se conheciam verdadeiramente.

É importante que no namoro as pessoas consigam conhecer-se da forma mais ampla possível, isto deve incluir, necessariamente: defeitos, qualidades, gostos, doenças, vícios, ambições e outros. Antes de se casar analise com calma, maturidade e imparcialidade certos assuntos como:

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Interesse financeiro, o pensamento mais frequente na sociedade é que apenas as mulheres casam-se por interesse financeiro, isto é uma inverdade, pois muitos homens casam-se pelo mesmo motivo, até há famílias que ficam muito orgulhosas pelos seus filhos(as) casarem-se com pessoas ricas ou de boa condição financeira para assim usufruírem de certos dividendos e também pela ascensão social. Mas desenganem-se, o dinheiro não traz felicidade, o que este pode proporcionar é conforto e regalias que contribuam para a felicidade por um curto ou longo período pois nunca é eterna, porque estar casada(o) com um rico(a) que treina pugilismo no teu corpo, que te traí tanto que até a galinha (irracional) na capoeira do vizinho já sabe, alguém que falta ao respeito aos teus pais, alguém que acha que todos os dias é dia do homem, alguém que não te respeita, nenhum dinheiro no mundo paga; isto, muitos não acreditam mas existem muitos ricos que são completamente infelizes. Outro aspecto financeiro é a partilha, antes do casamento o dinheiro era apenas para nós, agora há a necessidade de compartilhar despesas, é importante observar bem se a outra pessoa está disponível para a partilha (“mão de vaca” pode não ser flexível).

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Filhos, na última década o nível de escolaridade nacional aumentou cada vez mais, as pessoas têm a oportunidade de fazer formação superior e consequentemente casam-se mais tarde, começam a pensar em ter filhos também mais tarde e têm menos filhos; durante a fase de namoro este tema deve ser abordado, pois o outro(a) pode querer ter uma equipa de futebol, pode não querer ter filhos ou querer ter apenas um único filho. Quando as pessoas são flexíveis, este assunto pode ser apenas uma conversa amigável, mas se o outro(a) tem ideias fixas sobre o assunto pode ser um grande problema durante o casamento. Outra questão é o caso de pessoas que têm filho(s) anteriores ao casamento, durante o namoro este assunto deve ser muito bem dialogado, se possível colocar o namorado(a) em contacto com a(s) criança(s) para ver como o outro lado reage, pois há pessoas que podem vir a ser muito más como padrastos e madrastas, há que se pensar o que queremos realmente para o futuro a dois.

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Sexo, para quem não tem relações sexuais antes do casamento (ex: cristãos praticantes assíduos), a sexualidade no casamento é uma surpresa que deve ser entregue nas mãos de Deus, mesmo assim, se tiverem várias conversas mais íntimas talvez possam transparecer defeitos ocultos (Deus age a todo momento e de várias formas para alertar-nos, precisamos estar atentos). Para quem tem relações sexuais durante o namoro, a atracção sexual que se vivência no namoro pode não ser a mesma do casamento, no namoro a maior parte das pessoas vivem em casas separadas e arranjam-se antes dos encontros, no casamento, a dinâmica pode mudar, porque vivendo na mesma casa a olharem-se nas caras (amarrotadas) todos os dias o entusiasmo não é o mesmo, consoante o tempo vai passando pode perder-se o encanto. Quando chegarem os filhos, a sexualidade dos casais tende a mudar por causa do tempo para cuidar do bebé e esta mudança pode não ser para melhor a nível sexual; se for só pelas relações sexuais, é melhor não casar, pois não vai dar certo, a atracção sexual pode desgastar-se rapidamente.

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Beleza física, hoje a sociedade valoriza cada vez mais aspectos supérfluos como a aparência física, sim a aparência é importante mas não é a principal característica a ser valorizada. Se só quer alguém bonito, “caenche”, alto ou uma bonita, “rabuda” e “peituda” saiba que só beleza não paga dívidas, não faz trabalhos domésticos (válido para homens e mulheres), não mata fome, não traz felicidade, a beleza física é importante no primeiro impacto quando se conhece a pessoa, mas esta fase inicial passa quando se começam a observar os defeitos do(a) outro(a) como ser “agarrado(a)” demais, falar demais, ser violento(a), preguiçoso(a), fofoqueiro(a), gostar de infidelidade (“cornear” a torto e a direito). A beleza física não é duradoura as pessoas envelhecem e mudam.

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Comportamentos reprováveis, antes do casamento é bom observar o(a) parceira(o) em todos os cenários, se vai-te visitar todo(a) perfumado(a), bem penteado(a), arrumado(a) deves ver também como é que ele(a) vive e comporta-se em casa, na rua e noutros locais, pois pode ser que na sua ausência é um grande desleixado(a), gosta de uma boa catinga, bebe até cair, só fala a gritar, é violento, é infiel, é mentiroso(a) compulsivo(a). Observe como é que ele(a) trata os mais velhos, os animais ou pessoas que ele(a) considere vulneráveis ou abaixo dele(a), isto pode indicar outra faceta de carácter que esteja a ser ocultada. Questione o que ela(e) pensa sobre situações de infidelidade no casamento e violência doméstica há pessoas que acham normal e aceitável estes comportamentos. Observe como ela(a) reage em situações difíceis como discussões ou quando é contrariado(a). Algumas pessoas não gostam de receber em casa visitas de familiares do outro(a), apenas dos seus familiares. Todos estes aspectos devem ser abordados e analisados antes do casamento.

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Dinheiro, casar é muito lindo, mas casar custa muito dinheiro principalmente quando são festas de casamento dispendiosas, há necessidade de planeamento de uma cerimónia consoante a nossa capacidade financeira, não podemos querer impressionar apenas os convidados pois há vida após a cerimónia e esta pode ser dificultada por causa dos gastos exorbitantes efectuados na festa. Quem casa quer casa, antes de dar um passo para o casamento, defina prioridades reveja a sua capacidade de se sustentar e ao futuro(a) cônjuge, porque quando se vive em casa dos pais o cenário é outro, quando formos viver na casa própria (ou arrendada) estaremos por nossa conta e risco, assumiremos todas as despesas inerentes à vida quotidiana nesta nova fase e, para isto, devemos ter mínimas condições. Durante o namoro não tentem passar a falsa impressão que são ricos, quando na verdade são pobres; quem gosta de nós deve gostar pelo que somos não pelo que possuímos materialmente.

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Familiares, há um ditado que diz “Nós nos casamos com a família, não só com o cônjuge”. A maior parte de nós é muito próxima(o) à família, antes de casar veja bem os comportamentos e tradições familiares, pois podem interferir de forma positiva ou negativa no seu casamento, ele(a) pode estar habituada a dar parte do salário à família, o pai e os tios podem ter todos ter três mulheres e ele pode querer seguir o exemplo, sempre que há um grande acontecimento vão ao “quimbandeiro” “lavar-se”, a família pode ter por hábito intrometer-se sem limites nos casamentos, estes são aspectos a observar bem antes do casamento.

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O casamento pode ser um presente abençoado ou um presente envenenado, as escolhas que fazemos podem determinar qual o presente que teremos. Os ingredientes para um casamento feliz são: amor, paciência, dedicação, confiança, amor, cumplicidade, amizade, namoro, perdão, partilha, diálogo, respeito, maturidade e amor. Todos estes sentimentos são importantes mas fiz questão de escrever propositadamente a palavra amor três vezes porque é o sentimento base para que existam os outros, sem amor não existe casamento feliz pois só o verdadeiro amor constrói pontes indestrutíveis.

Bibliografia de apoio: