Texto : Lourenço Mussango


Hoje apresentamos uma figura propulsora da nossa identidade cultural que raramente fala do seu trabalho e da sua colecção que conta com mais de 1700 obras de arte, bem como empresário ligado à industria farmacêutica. Nuno de Lima Pimentel é conhecido como um dos principais coleccionadores de arte antiga, moderna e contemporânea, que desde 1999, quando comprou a sua primeira obra de arte na África do Sul, até os dias de hoje tem comprado e promovido as belas-artes dentro e fora do país e vai conservando a nossa identidade pintada por mestres angolanos como Neves e Sousa, Viteix, Valentim Caterça, Zam Andrade, Malangatana, Mendes Ribeiro, António Ole, Augusto Ferreira e outros.

 

Nuno Pimentel além de coleccionador de arte, desenha, escreve, toca guitarra, canta e declama poemas. “Comecei a escrever poemas aos 7 anos de idade, após um interregno, retomei a escrita aos 14 anos,  tinha um caderno, semelhante a um livro de ponto, onde eu tinha várias poesias e desenhos, ao mudar de casa o caderno acabou por se perder. Continuei a escrever, principalmente nos momentos de nostalgia quando estava a estudar nos EUA, em Londres e na África do Sul, a saudade da família e do ambiente da terra inspiravam-me para um género literário pontual, a poesia”.

 

O gosto pela leitura e pela escrita, na vida de Nuno Pimentel teve influência directa de sua mãe Cremilda Hall de Lima. “Ela dava-me livros para ler, e fui ganhando o gosto pela leitura. Ainda quando tinha 7 anos havia um amigo da família que me convidou a participar num concurso de poesia”, contou.

 

Nuno acabou por não participar no concurso de poesia por que faltavam-lhe alguns poemas para completar o número exigido. Já adulto, na Maianga, em companhia dos amigos tocava guitarra, escrevia poemas e desenhava no terraço do prédio onde vivia. “Éramos um grupo de 10 pessoas, tocávamos em vários sítios, nomeadamente num bar ao lado do Codeme, na praia e outros locais; tocávamos, cantávamos e eu declamava poemas meus e de escritores como Florbela Espanca, Agostinho Neto e outros”, salientou.

 

“A minha mãe foi a pessoa fundamental no moldar o meu perfil como homem, transmitiu-me os princípios  e valores que hoje possuo, incentivou-me   a estudar, a ler e a cultivar-me, com estas bases educacionais trilhei a minha caminhada”, afirma Nuno Pimentel.

 

De regresso a Luanda em 2003, Nuno trouxe consigo uma obra de arte comprada na África do Sul em 1999 e deposita na Casa Azul, local que servia de armazém de medicamentos vendidos na sua farmácia do Miramar. Constrói armazéns e retira os medicamentos da Casa Azul com ajuda do seu irmão Mauro Pimentel. Na Casa Azul, hoje a ‘Galeria Hall de Lima Pimentel’, restara apenas obra de arte trazida das terras de Mandela. “Pedi ao Marco Kabenda para restaurar a obra, e nessa altura eu já frequentava a baixa de Luanda, a UNAP e o Elinga. E se bem me lembro o primeiro contacto que tive com os artistas foi na rua, eles estavam no largo UNAP, estavam o Mestre Kapela, o Marco, o Yonamine e o Lino Damião, ou seja, estavam ali ‘Os Nacionalistas’. Após esse encontro, comecei a conviver com eles e a frequentar os ateliers dos artistas e a comprar diversas obras”.

 

O convívio de Nuno com os ‘Os Nacionalistas’ foi “crucial” no seu desenvolvimento em relação a arte, bem como para avolumar e enriquecer a colecção que hoje possui. “De facto, depois da obra comprada na África do Sul, comprei diversas obras aos  ‘Os Nacionalistas’, nomeadamente:  Kapela, Lino Damião, Yonamine, Kiluanje, Tho Simões, Ihosvanny Cisneros, Benjamim Sabby, Nelo Teixeira, Paulo Azevedo, Rui Tavares e Paulo Jazz. De realçar que os três últimos artistas não fazem parte de ‘Os Nacionalistas’”.

 

No contacto permanente com ‘Os Nacionalistas’, Nuno foi conhecendo outros artistas e actuou como mecenas,  incentivando-os e  apoiando com material diverso. “Eles perceberam o valor de suas obras e continuaram a trabalhar afincadamente, tendo eu continuado a apoiar e a comprar sempre mais obras, o que proporcionou o crescimento do ‘movimento’ artístico”, referiu.

 

Hoje com uma colecção de 1700 obras de arte, Nuno Pimentel considera-se um guardião e propulsor da nossa identidade cultural. “Apesar de sentir uma grande curiosidade, interesse e atracção pela arte, no início comecei a coleccionar sem um objectivo específico, posteriormente despertou em mim a  noção do valor e a importância do trabalho que eu estava a realizar, com fortes alicerces na valorização e observação atenta, da nossa identidade cultural, dos nossos valores, dos nossos hábitos e costumes. Foi  como despertar as pessoas para a interiorização das nossas origens e valorização da nossa ancestralidade”. Com o intuito de conservar a nossa idiossincrasia, Nuno a partir desta visão conservadora começou não só a coleccionar arte contemporânea e moderna como arte antiga. E já possui cerca de 300 obras de arte antiga.

 

Nuno Pimentel garantiu que quando compra e colecciona obras de arte antiga, moderna e contemporânea tem como objectivo captar momentos que ficarão para posteridade. “Tento fazer o registo do tempo: o passado, o presente e o que virá. Para poder preservar e mostrar isso aos meus filhos e netos, a sociedade angolana e ao mundo. Temos de preservar a nossa identidade. E os artistas têm feito esse registo”.

 

O Elinga Teatro foi o primeiro espaço em que Nuno Pimentel fez a sua primeira exposição com quadros da sua colecção. A exposição foi montada de manhã e retirada de noite, isto porque teve receio de ver as obras danificadas. Porém, garante que apesar de curta foi uma boa experiência e que se fosse hoje deixaria ficar mais tempo a exposição.

 

O colecionador refere que  procura manter cordialidade com as pessoas que já trabalharam com e para si, e que tenta sempre ter uma relação de respeito com essas pessoas e instituições. “A Janire Bilbão e a Sónia Ribeiro trabalharam comigo, na produção, quando a Galeria Hall de Lima Pimentel começou. Mas antes, ainda na Casa Azul, Sérgio Afonso, Edson Chagas, Carlos Alberto ‘Indiano’ e o Álvaro Palana colaboraram na produção de eventos e conservação das obras. De igual modo, trabalhei com um curador agora a pouco”, salientou.

 

Questionado sobre a ausência do seu nome e do nome da Galeria Hall de Lima Pimentel no artigo. ‘Sobre as tendências da arte actual em Angola: da criação aos novos canais de legitimação’ de autoria do crítico de arte Adriano Mixinge, publicado no médium ‘ArteCapital’. Nuno Pimentel afirma ter ficado surpreso com tal atitude do crítico, sendo que o mesmo no dia 16 de Fevereiro de 2016 esteve na sua galeria e deixou uma nota de elogio sobre o trabalho desenvolvido pela Galeria Hall de Lima Pimentel.

 

“O crítico de arte Adriano Mixinge esteve cá, na Galeria, na altura em que decorria a exposição do Kapela, com cerca de 100 obras, para meu espanto no referido artigo, ele citou algumas galerias novas e de pessoas que estão no mercado há pouco tempo, daí concluir que: infelizmente nas artes e como em outros negócios, há sempre interesses em jogo. Contudo, congratula-me o facto da UNAP me ter homenageado com um diploma de honra pelo trabalho desenvolvido em prol da arte e da cultura nacional, e que o ‘movimento’ artístico inicial mantenha presente o facto de eu ter sido o ‘actor’ fundamental, que deu  fôlego e vida a  arte angolana, após uma longa hibernação”.

 

Nuno Pimentel é membro honorário da UNAP, neste momento tem estado a fazer algumas exposições e dado como empréstimo algumas obras para serem expostas em outras galerias e museus, dentro e fora do país. “Neste momento decorre uma exposição em Budapeste, na Hungria,  a mesma teve início na Alemanha, com obras do Kapela, já estiveram em  Portugal onde permaneceram em galerias municipais durante três meses.

 

Durante seu percurso de vida como amante, comprador e coleccionador de arte, Nuno revela-se num mecenas, já que diz ter organizado e patrocinado muitos eventos e também incentivado artistas hoje conceituados. “Além do que atrás mencionei, patrocinei inúmeras actividades que contribuíram imenso para o desenvolvimento da arte angolana, a citar: actividades da NARA (associação de reggae); ajuda na publicação do CD do Jorge Rosa, apoio ao músico Dalu Roger, ao artista N’Dilo Mutima, ao Poeta dos Pés Descalços (Ângelo Reis), realização do evento três dias e três noites de ‘Os Nacionalistas’, em 2005,  no largo da UNAP”, observou.

“Em 2006 patrocinei e realizei com a UNAP o festival ‘O Arquitecto e as Artes’, onde participaram os seguintes artistas: Wyza Kendy, Joãozinho Morgado, Boto Trindade, Hélio Cruz, Toty Sa’Med, Banda Welwitcha, Luanda Dread Band, Neblina e Banda Raízes”, acrescentou revelando que comprou oito obras de arte plástica aos meninos do ‘Orfanato Mulembeira’ a fim de ajudar esta instituição, e patrocinou o músico Ismael Ngongo e vários eventos no Elinga Teatro. De igual modo, patrocinou a peça teatral intitulada ‘Monólogos da Vagina’ de Orlando Sérgio e Miguel Hurst, exibida no teatro Chá de Caxinde.

 

Nuno de Lima Pimentel também patrocinou a banda Next  e o evento ‘Mabaxa’, produzido por Fernando Alvim. Patrocinou a edição e publicação do livro ‘Perspectiva do Ordenamento e Planificação Turística em Angola’, de Nelson Kabenda.

 

Na exposição BAI-Arte de 2014 com produção de Dominick Mayer, deu como empréstimo algumas obras, bem como cedeu, a título de empréstimo, várias obras à Fundação Sindika Dokolo. “Emprestei cerca de vinte máscaras ao artista Edson Chagas para sua exposição intitulada ‘Tipo Passe'”, concluiu.

 

Em 2014 também emprestou obras à Mov’Art para uma exposição no Elinga Teatro. Actualmente tem apoiado e patrocinado eventos culturais organizados pelo Observatório Literário Tundavala.

 

Nuno Pimentel formou-se em Gestão de Empresas, em Washetenaw (EUA) e depois em North London University (Londres). Hoje é um humanista ligado a indústria farmacêutica que concilia sua veia empresarial com o amor que nutre nas artes plásticas, música, literatura e organização de eventos.

 

De acordo com o empresário, a arte angolana está a ter um percurso “espetacular”,  está a ter abertura e créditos internacionalmente. Refere que se “deve” trabalhar mais e existir de igual modo mais incentivos, escolas e universidades de belas-artes, “pois existem muitos jovens com trabalhos interessantes”. “Minha opinião é que para além de se produzir arte para comercialização, será também necessário fazerem-se estudos e criar à volta de uma temática que questione factos com apresentação de alternativas.”