Os homens, por meio das religiões monoteístas, construíram na memória colectiva de quase todo mundo a imagem de um ‘Deus-Pai’ de quem somos imagem e semelhança e que com suas leis ‘inquestionáveis’ silenciou e subjugou a mulher ao homem. Com o surgimento da colonização cristã e do ideário expansionsta islâmico, em muitas culturas africanas, para além do modo de ser e estar endógeno, a mulher passou a ser vista como um ser inferior, de segunda categoria, sem estirpe e expressão. A figura da mulher viu-se alienada e oprimida. E em Angola não se fugiu à regra.

Passaram-se anos, mulheres como Nzinga Mbandi, Kimpa Vita e Deolinda Rodrigues fizerem eco no seu tempo e emanciparam-se. Mas o eco foi efémero e muito cedo caiu por terra. Porém, depois de muito tempo de silêncio, em Junho do ano passado, duas jovens cultas (Sizaltina Cutaia e Âurea Mouzinho), defensoras dos direitos da mulher no país, decidiram criar um observatório de e para mulheres reflectirem sobre questões ligadas ao pró-feminismo. Assim, sob as brumas de uma sociedade patriarcal, emergiu o Ondjango Feminista.

O Ondjango Feminista é um movimento associativista que já conta com mais de 60 jovens activistas inscritas, cujo objectivo consiste em consciencializar a mulher sobre a sua cidadania e direitos; sobre que atitude tomar perante a violência contra a mulher. Consiste também em ‘abolir’ a objectificação e estigmatização da mulher na sociedade angolana.

Jovens como Cecília Kitombe, Florita Telo, Aline Frazão e Leopoldina Fekayamale têm desenpenhado um papel imprescindível em relação à valorização das mulheres na pirâmide social. Estas e outras jovens feministas fazem do Ondjango um centro de empoderamento, emancipação e desalienação da mulher. E têm, aos poucos, construído discursos abolicioniastas que, com mestria, desconstroem e repreendem acções relacionadas ao patriarcado, ao sexismo, à misoginia, ao machismo e à hipersexualização.

Ondjango Feminista advoga a liberdade, a emancipação e o empoderamento da mulher, para que esta tenha a plena convicção de que é tão capaz quanto o homem. Assim, esse movimento tem, de forma clara e sábia, desconstruído a supremacia do homem em detrimento da mulher, e rompido com os hábitos e costumes antiquíssimos enraizados na tradição (ancestralidade). De igual modo, tem desmascarado fundamentos religiosos e crenças retrógradas que emergem do filosofar arcaico de algumas igrejas centradas no ‘Deus-Pai’.

O processo de desconstrução de falácias e pensamentos machistas já começou. E a afirmação de que, apesar de diferença biológica, homens e mulheres são seres iguais, é cada vez mais ‘tangível’. Nesses moldes, com a recontextualização pautada num pensamento mais sólido e unificador, as feministas do Ondjango têm feito chegar a seguinte mensagem: “Homens e mulheres sob uma perspectiva filosófica e social devem sempre ser vistos no âmbito da justiça social”.

A crítica não se estende só a homens mas, também, a mulheres que corroboram e ratificam as acções machistas e misóginas por se silenciarem quando injustiçadas, e por apresentarem comportamentos indignos e desavergonhados quando pretendem ascender com facilidade. Jovens que ainda não fazem parte desta organização emancipada, sigam e discutam ideias no seio destas feministas, só assim poderão não mais se deixarem seduzir pela ‘Indústria Cultural’ que ‘coisifica’ a mulher por meio dos média, da moda, das músicas, dos filmes e da publicidade.

Diferente do que se apregoa aos quatro ventos, as feministas não são mulheres amargas e que sentem a falta de homens. Jovens da Banda (mulheres e homens), é imperioso despirmo-nos da nossa arrogância ilógica e olharmos o Ondjango Feminista sem preconceitos e pré-noções. Porque apesar dos factores biológicos que nos diferenciam, somos todos iguais e devemos cultivar o diálogo sadio. Através deste criaremos uma sociedade mais inclusiva, congregadora, com mais justiça social e sem assimetrias. Sejamos UNO na diferença, a fim de termos em nós a consciência de pertença que fará de Angola uma nação.

Mas antes mesmo de terminar, embora respeitando a liberdade de consciência de todos, queremos aqui condenar os discursos de ódio e intolerância que algumas manas ‘feministas’ advogam no Facebook. O feminismo enquanto tal não é uma corrente filosófica que assenta no radicalismo ideológico e nem visa criar cisão entre homens e mulheres. É a continuidade do ideário que vem forjar identidades próprias, emancipar o ‘Homem’ enquanto ser pensante, sedimentar a igualidade de oportunidades, exigir direitos, ratificar a meritocracia, independentemente do sexo. Minhas manas do Ondjango Feminista, nós que vos escrevemos, também já fomos machistas, mas rendemo-nos ante a nobreza da vossa luta e causa. Continuem! E tal como afirma o jovem autor Victor Hugo Mendes: “Há sempre alguém a contemplar”.