Por: Lourenço Mussango
Imagens: Santo César


Na noite de ontem (14), no Auditório Pepetela, o escritor José Luís Mendonça relançou o romance ‘O Reino das Casuarinas’, cuja apresentação esteve a cargo do escritor Domingos de Barros Neto. O livro é uma sátira à realidade social e política e defende o comunitarismo partindo do princípio, por exemplo, de que  os ministros deviam morar nos musseques a fim de saberem as reais vivências e necessidades da população.

Sob o manto da hermenêutica literária, Domingos de Barros Neto fez saber que as raízes estruturantes que sustentam o romance ‘O Reino das Casuarinas’ assentam-se em três pilares. O primeiro pilar é a da explosão da guerra na região norte de Angola, levado acabo pela então UPA em 1961. O segundo pilar é o do advento da ‘Revolução do Cravos’ em Portugal, a 25 de Abril de 1974, que acabou por alterar a configuração do panorama político e social angolano, acelerando a independência nacional. O terceiro, o despoletar do conflito interno angolano que provocou convulsões sociais na vida dos povos de Angola.

José Luís Mendonça, autor da obra, observou que o romance é uma sátira a realidade social e política, com muita ficção pelo meio. “Mas tem personagens reais: Agostinho Neto, Nito Alves, Holden Roberto e Jonas Savimbi aparecem na narrativa, com os seus discursos, embora pequenos. É tudo uma questão da realidade transposta para a ficção. De modo que os sete malucos são pessoas que eu encontrei na rua e que pus no romance com papéis inventados por mim”.

Segundo o autor, a mensagem objectiva do livro assenta na constituição do reino que é fundado na concepção do comunitarismo. “Uma vida baseada no núcleo mais base da organização administrativa que é o município. Portanto, o que o livro defende é que a administração deve ser municipal baseada na micro e não na macro economia. E baseada na solidariedade entre as pessoas e no controlo das finanças a nível comunitário. Os ministros deviam morar nos musseques a fim de saberem as reais vivências e necessidades da população”.

O autor considera que “o registo histórico que a obra fixa é essencial para contrariar o branqueamento do passado, elevando a heróis as vítimas e o homem anónimo”. O Reino das Casuarinas é um reino criado com base numa constituição proverbial. E nele problematiza-se também a questão da segurança individual e colectiva. Considera ainda que “O título e localização espacial do romance na Floresta da Ilha é um panfleto contra a destruição ecológica da Ilha de Nossa Senhora do Cabo. É uma homenagem às casuarinas, essas belas árvores coníferas da nossa terra”.

De realçar que o romance histórico com duas histórias narradas em paralelo. A do narrador auto-diegético, Nkuku, que conta a sua experiência traumática desde o início da luta de libertação, em 1961, até 1987, e a história da fundação na Floresta da Ilha de Luanda de um Reino, cuja população é composta por sete deficientes mentais (vulgo malucos), governados por uma mulher, a Rainha Eutanásia. Segundo o autor, “Parece que virar maluco pode ser uma estratégia de sobrevivência humana perante os lobos do próprio homem. Este livro é uma homenagem a essa classe de sombras que ninguém vê passar no tempo”.

José Luís Mendonça sublinhou que a leitura é o objectivo principal de uma publicação. “Se o livro não é lido, não cumpriu o seu obejctivo. O que eu espero é que as pessoas leiam e debatam o livro”. Fez saber ainda que tem um outro romance que aborda os problemas actuas do país, e que será publicado em 2018. De modo pedagógico aconselhou os jovens aspirantes a escritor a serem autodidactas. “Pelo menos leiam um livro por mês. A escrita é como um sacerdócio”.