Tenho orgulho em ser é a nova rubrica da revista Jovens da Banda, virada para jovens que por diferentes motivos exercem profissões que nunca estiveram nos seus planos. A rubrica tem como objectivo mostrar aos nossos jovens que apesar de não sermos o que muitas das vezes desejamos, é possível termos orgulho do profissional que nos tornamos, independentemente de quanto ganhamos. O mais importante é trabalhar com dignidade sem subtrair as coisas alheias.

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Para estrear a nossa rubrica, trouxemos a história de Jeremias TimóteoLaurindo Pereira, de 23 anos, natural do Candombe 9 na província do Uíge.

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Jeremias é um jovem da banda Alfaiate que sempre sonhou ser jogador de futebol. Quando miúdo e adolescente, treinou em vários clubes de futebol da sua terra natal na esperança de algum dia ser avistado por um olheiro e começar a dar passos firmes rumo à sua carreira futebolística. Apesar dos inúmeros esforços, viu o seu sonho de um dia representar os palancas negras a morrer aos poucos, porque a vida começou a exigir do ainda adolescente, meios financeiros para poder sobreviver. Foi assim que no ano de 2007 Jeremias vem para Luanda na tentativa de dar seguimento aos seus estudos e fazer algum “biscato” para poder ajudar a sua família. Posto na cidade capital, começou a viver com o seu pai, que é alfaiate de profissão.

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O jovem sonhador que tinha a intenção de estudar, não conseguiu ingressar ao ensino médio, porque os seus progenitores não conseguiam arcar com os custos da inscrição e compra de material escolar. Não tendo outra alternativa, Jeremias começou a lavar carros na Praça da Madeira, mas desistiu após 6 meses de trabalho devido ao elevado número de criminalidade naquele recinto comercial, segundo nos contou: ‘’Desisti porque havia muita delinquência e confusão, a pessoa fazia algum dinheiro e aparecia sempre alguém para te receber”. Depois da tentativa falhada como lavador de carros, Jeremias passou a interessar-se mais pela profissão do pai e começou a acompanhá-lo ao seu local de serviço, na altura, o mercado do Asa Branca.

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Depois de quatro anos de aprendizado e ainda pouco experiente como Alfaiate, com os seus 19 anos, Jeremias decidiu começar a exercer a profissão sem o acompanhamento do seu mestre (pai). Isso no ano de 2011. Muito introvertido e ao mesmo tempo educado, descreve-se como um alfaiate de mercados, tendo já trabalhado em 3 distintos mercados (Asa Branca, Viana Sanzala e Zango 4). Actualmente está num pequeno mercado vulgarmente conhecido como 11 de Novembro, onde partilha uma secção dedicada aos alfaiates.

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No mercado 11 de Novembro, Jeremias Pereira com 23 anos é o alfaiate mais jovem e confessou-nos que a sua pouca idade no início foi um impasse para conseguir conquistar a confiança dos clientes, visto que a profissão de alfaiate é quase sempre associada a pessoas mais velhas. ‘’Muitos clientes ficam com receio de darem–me algum serviço por ser mais jovem e ficam com medo de eu estragar a roupa. Mas eu me confio e quando me dão um trabalho eu faço bem o serviço e aí eles voltam sempre”, disse Jeremias. Quando questionado sobre o porquê de poucos jovens envergaarem para a alfaiataria, ele afirmou: “Os jovens ignoram a profissão por acharem que é apenas para mais velhos. Mas eu estou disposto a ensinar de forma gratuita todos os que queiram aprender a coser e a confeccionar roupas, desde que tenham força de vontade e humildade”.

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Jeremias que nos dias de hoje ganha a vida somente como alfaiate contou-nos que diariamente consegue fazer dinheiro suficiente para sustentar a sua família, constituída pelos seus dois filhos e a sua esposa que é comerciante de produtos alimentares num dos mercados da Kianda. Contudo, reconheceu que os finais de semanas são os dias mais lucrativos. Perguntamos ao nosso jovem da banda se está feliz por ser alfaiate e quais os seus planos para o futuro, e com um sorriso no rosto, respondeu-nos da seguinte forma: ‘’A vida muita das vezes não é fácil e nos obriga a fazer certas coisas para sobreviver, e eu hoje estou aqui. Eu estou feliz sim, mas se algum dia tiver algum apoio gostaria de voltar a estudar para poder ter outras oportunidades”. No final da nossa conversa, Jeremias deixou ainda um conselho para todos os jovens: ‘’A vida  difícil, mas de preferência trabalhar do que roubar. Tirar o que é do outro é muito feio, trabalha e ajuda também os outros sempre”.

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