Por: Albino Tchilanda
Imagem: Lenin Staff


Bernardo Augusto, de 40 anos de idade, é deficiente da perna e do braço direito. O residente no bairro Capalanga, em Viana, é um reparador de objectos electrónicos mais respeitado desta zona. Com o braço e a perna paralisados desde os 18 anos, Bernado decidiu montar uma oficina de reparação de rádios, televisores, monitores, altifalantes, em casa do tio, na rua direita da Universidade Jean Piaget e é com este atelier que sustenta a esposa e os 4 filhos há 20 anos. Devido a experiência, hoje sua oficina recebe vários estudantes de engenharia electrónica para o esclarecimento de algumas dúvidas com o mestre Bernardo. O técnico contou à JdB como faz para conseguir trabalhar com o braço e a perna direita  imóveis.

“Aprendi a profissão em 1993 com um mestre das comunicações no Huambo, na altura o meu braço e perna ainda estavam bem. Eu não nasci assim! Estou assim por causa dos bandidos”, com os olhos molhados desabafou.

‘Ti Bernardo’, conforme é tratado pelos vizinhos, vivia com o tio, que o trouxe à Luanda em 1997 devido a situação de guerra. Posto na capital do país, Bernardo teve má sorte, pois certa vez os ladrões, armados, assaltaram a casa do tio e o jovem infeliz chegou a levar dois tiros que o paralisaram os membros. A família chegou a fazer os tratamento no Hospital Militar, mas na altura em Luanda não havia tantos autocarros e, como a família não possuía um meio de transporte  na falta deste, Bernardo teve de pensar em algo que ajudasse o tio a custear as despesas médicas.

Com apenas 18 anos decidiu colocar em prática os conhecimentos em reparação de electrônicos, foi então que constrói a actual ‘Oficina do Mestre Berna’, em 1997. A construção das instalações parecia não ajudar em nada, pois na época não havia clientes, mas Bernardo insistiu no negócio, por ser a única coisa que dominava.

“Quando chegamos em Luanda os bandidos assaltaram a  nossa  casa e eu levei 2 tiros, um no braço e o outro na coxa. Depois disso a vida era mesmo só Hospital Militar e senti que o tio gastava muito, então decidi montar esta oficina e trabalhar como radiotécnico para a ajudar o meu tio. A única coisa que tinha aprendido era só mesmo reparar rádios, televisores e altifalantes, já não sabia fazer mais nada! e hoje continuo a sustentar a minha família com esta profissão”, explicou.

Bernardo lembrou ter apreendido o ofício aos 16 anos e com bastante sacrifício, com o mestre, Eduardo Uauca, de quem guarda boas memórias, mas não sabia que o que estava a fazer-lhe garantiria o sustento da sua vida, tanto mais nesse momento que se encontra imobilizado.

Na altura ainda muito jovem frequentava a 6ª classe e entrou na oficia do seu mestre por curiosidade, porque sonhava ser engenheiro de telecomunicações, o que não veio acontecer, porque Bernardo tornou-se deficiente dos membros e viu-se forçado a parar na 8ª classe.

“Quando entro na oficina do mestre Uauca não sabia que esta profissão me ajudaria hoje. Era difícil, mas como queria trabalhar nas comunicações não parei de ir à oficina”, disse.
Com voltímetro, chave de fenda, ferro de soldar e estanho, mestre Bernardo conserta os televisores, DVD, monitores, altifalantes com apenas o braço esquerdo, porque o direito continua sem acção.

A reparação depende da avaria, mas em um dia pode reparar em média cinco aparelhos. Quanto aos preços, vão dos 6 a 95 mil kwanzas, mas tudo em função do problema técnico e por conseguir um bom dinheiro no mês descarta a possibilidade de um outro emprego”depender do fim do mês”.

Mas para manter o “bom dinheiro” é preciso que o técnico se actualize sempre e não se deixar ultrapassado pelo tempo, considerou, por isso é que procura melhorar suas técnicas diariamemnte. O mestre que começou a reparar gravadores de cassete, rádios à pilha, discman e pequenos altifalantes, hoje pode reparar tudo que é material electrônicos e recebe outros jovens desejosos em aprender.

“Um bom técnico tem que se actualizar sempre. Comecei a reparar aquelas rádios brancas e depois os gravadores de cassete, discman, mas hoje tudo que é electrônicos eu reparo. Não é à toa que os estudantes do Piaget vêm me consultar”, gabou-se.

Afinal, mestre Bernardo diariamente não recebe apenas clientes do seu bairro, recebem também os do Luanda-sul, Cazenga, Boa-fé, Kilamba Sequele, que muitas vezes chegam aflitos e o “Ti Berna” devolve-lhes a alegria, mas segundo confessa, o plasma é o aparelho mais difícil de se reparar, por falta de material.

Apesar da limitação do braço, Ti Bernardo diz conseguir fazer melhor o seu trabalho, porque sempre pensou em ajudar os outros com aquilo que sabe, mas o “engenheiro” não trabalha sozinho, tem um colaborador, o jovem Adão Paulo, de 32 anos de idade e pai de 3 filhos que também já construiu sua casa na profissão e sustenta os três filhos.

“As coisas pesadas eu é que levanto, por causa do estado do kota. Este trabalho é melhor do que muitas coisas. Eu trabalhava na Sistec, mas abandonei, porque acho que na oficina é melhor”, garante. “Aqui já construí a minha própria casa”, revelou o jovem.