Por: Israel Campos


Com objectivo de mudar a consciência das pessoas sobre o tratamentos dos animais, a Associação ‘Angola Rescue‘ surgiu em Setembro de 2015 quando, após Filipa Augusto, que sempre trabalhou em resgate e recuperação de animais de rua, ter criado uma página no Facebook denominada ‘Luanda Rescue’, algo que colheu a imediata simpatia de Fátima Pires, que se sentiu desafiada para a criação de uma associação. Na ressaca do dia mundial do animal, que se assinala a 4 de Outubro, dentre vários desafios que têm de enfrentar, as fundadoras daquele projecto de protecção de animais, anseiam por uma legislação que regule o tratamento desses seres e um espaço fixo para as instalações da associação. Alertam ainda que há muitos animais abandonados por falta de conhecimento.

 

Quais são os objectivos da associação?

FP – O principal objectivo da associação é mudar a consciência das pessoas, porque, como nós sabemos, os animais aqui são bastante maltratados. Há muitos animais abandonados nas ruas, não só na cidade de Luanda, como também nas restantes províncias, tudo isto tem a ver, talvez, com a falta de conhecimento. Pessoas que têm animais e os deixam deambular pelas ruas e estes animais acabam por procriar e daquilo que sabemos um casal consegue reproduzir, em cerca de sete anos, uma ordem de 70 mil gerações. Portanto, a nossa tarefa, neste momento, é alertar as pessoas sobre a esterilização, que é muito importante e também sobre a vacinação, que é a protecção.

Quantas pessoas integram a associação?

FA- Temos um grupo de associados e um grupo de voluntários. A nível de associados, temos um número que ronda os noventa. Não avanço um número certo, porque todos os dias recebemos propostas. A nível de voluntários, temos a volta de setenta a oitenta voluntários.

Como é que é o dia-a-dia da associação? Quando, por exemplo, é que recebem o alerta de que precisam de fazer um resgate de determinado animal?

FP- A associação não está voltada para resgates. Os objectivos são muito mais abrangentes. Acontece que cada voluntário ou associado que se junta a nós são pessoas que gostam de animais e estas pessoas acabam por ganhar coragem, quando estão diante de um caso em que é necessário fazer o resgate de um animal que esteja em perigo de vida. Basicamente, os resgates que nós publicamos na página somos nós como pessoas individuais e não como associação. E, quando nós publicamos, é para mostrar que qualquer um pode fazer isto. Nós temos uma página que tem imenso movimento e procuramos dar resposta a todas as mensagens que chegam, incluindo estes pedidos de ajuda para resgate, doações de animais… nós acabamos por fazer esta tramitação entre uns e outros. Ocupa-nos bastante. Desde as primeiras horas do dia (risos)… é quase 24/24. Ocupamos os finais de semana, porque todos nós trabalhamos e aproveitamos para fazer algumas actividades na rua de sensibilização, de identificar zonas com muitos animais e conseguir tratar o máximo de animais possível, com vacinação e desparasitação e com algumas intervenções a nível clínico, quando está ao nosso alcance.

Ao longo deste tempo de actividade, a associação tem contado com apoios?

FP- Contamos com pessoas particulares e algumas empresas privadas que acompanham o nosso trabalho e acreditam naquilo que estamos a fazer e com isso vamos conseguindo cobrir despesas e necessidades que são quase diárias, porque os animais também são como as pessoas, desculpe fazer esta analogia. Eles precisam comer, precisam ser tratados, precisam de limpeza quando eles estão a ocupar algum espaço… tudo isto se reflecte em valores. Portanto, nós precisamos de valores monetários para conseguir cobrir todas estas necessidades.

Nos dias que correm, quais são os principais desafios que a associação enfrenta?

FP- São vários. Só o facto de colocarmos o objectivo que é mudar a consciência das pessoas, crenças, fobias, só isto já é um grande desafio que parece algo impossível, mas nós gostamos de desafiar o impossível. Conseguir que haja uma mudança na legislação, como já acontece nalguns países, também é um desafio que queremos transpor.

E que mudança seria esta na legislação?

FP- Não existe uma legislação que proteja os animais de agressões! Lá fora, isto já é um crime, porque quem consegue maltratar um animal é capaz de outras acções perigosas contra outras pessoas. Estamos a falar da protecção, estamos a falar da identificação obrigatória do animal, estamos a falar da esterilização que passa a ser obrigatória em alguns casos e também venda de animais. Existem inúmeras situações que a lei pode inibir alguns factores que chocam a sociedade, ao menos uma parte da sociedade que se preocupa com esta situação.

 

 

Existe continuidade da associação em outros pontos do país?

FA- Neste momento, ainda estamos confinados na capital do país. Na altura, nós alteramos o nome de “Luanda Rescue” para “Angola Rescue”, porque o nosso objectivo a longo prazo será conseguirmos estar em várias províncias. Neste momento, ainda somos pequenos. Ainda estamos a dar os primeiros passos e por isso só conseguimos estar ainda na capital. Mas futuramente acreditamos conseguir estar noutros pontos do país.

Sabemos que a associação está sem instalações no momento. Porque é que precisam de um espaço?

FA- Sempre que recebemos um animal, como a Fátima já referiu, não é este o nosso objectivo, mas há sempre situações em que tem de haver uma recolha imediata do animal, necessitamos de um espaço para conseguir fazer o tratamento deste animal. Mesmo a parte da esterilização que é um dos nossos principais projectos para a associação, que consiste na captura, vacinação, esterilização e devolução. Necessitamos de um espaço para poder fazer este processo. Pois durante este tempo o animal precisa de ter um local seguro em que consigamos controlar se o animal não tem doenças e se a esterilização correr bem ele poderá ser devolvido ao seu ambiente natural. O espaço que tínhamos era um que já sabíamos à partida que era provisório. Chegamos a ter cerca de 18 cães neste espaço que graças a Deus foram todos adoptados. A ideia do espaço é ter animais não permanentemente mas sim de passagem. Fazer o tratamento e depois se conseguir a adopção.

Que apelo deixam à sociedade?

FP- É importante haver um espaço. Não só um espaço a ser gerido pela associação. As administrações, de cada um dos municípios, devia ter um espaço para que os moradores daquela zona pudessem usufruir deste serviço, porque isto é um serviço público. Os serviços sanitários e veterinários do Ministério da Agricultura têm esta obrigatoriedade. Por exemplo, alguém no Cazenga que tenha um animal e este esteja doente, não tem que se deslocar até ao Benfica. Podia deslocar-se até à sede do município e lá receber toda a informação, os cuidados que deve ter com este animal, formas de este animal não causar perigo a outrem… tudo isto não depende só da associação. É um conjunto de factores que acabam por resolver esta temática. Queremos, sim, um espaço, não para fazer um canil-gatil, mas sim um espaço de passagem. Porque, como disse a Filipa, quando recolhemos o animal da rua ficamos, logo a pensar e depois de ele sair da clínica, para aonde vai este animal? Quanto tempo terá de ficar connosco? Enquanto isto, ele tem que ter um espaço para ficar. Seja este espaço provisório ou definitivo. Na Maianga estávamos numa casa abandonada que tinha um quintal muito grande. De certa forma, estávamos ali e servíamos de guardiões da casa, porque temos cães e a casa estava sempre movimentada com pessoas, ou seja, já inibe também aquelas ocupações anárquicas e vandalismos. Portanto, quem tiver uma casa abandonada e precisar de seguranças (risos), de preferência no centro da cidade, porque infelizmente existe a condicionante de a maior parte dos voluntários estarem no centro da cidade e por serem pessoas que trabalham não têm condições de, de repente, terem de abandonar o local de trabalho para se deslocarem para sítios muito distantes. Na condição de ser um espaço provisório, pode ser um quintal abandonado. Uma área com alguma segurança, vedada, e nós então conseguimos fazer muito mais. Se for um espaço definitivo, é muito mais do que nós esperamos. Nós ficaremos imensamente gratos a quem conseguir esta proeza.