Por: Pihia Rodrigues

 

O bife entre a Força Suprema e Projecto X está a despoletar elementos interessantes no seio infanto-juvenil do país e não só, e a mexer com esferas da sociedade que lhe torna ainda mais curioso. Mais velhos, como Miguel Neto ‘Nível’, que durante algum tempo considerou a cena do Hip Hop doméstico como moribunda, hoje é o principal entusiasta no movimento, chegando, inclusive, a ponderar participar no desenvolvimento de uma plataforma para analisar e estimular essas batalhas verbais que estão próximas de nos lembrar as lendas dos EUA, 2 Pac e BIG, mas próximo mesmo, porque disso não passa e esperamos que nem no futuro se efective. Parece que numa das edições do diário público foi reservada uma página a tratar do assunto. O empresário e dirigente desportivo Horácio Mosquito manifestou intenção de emitir sua opinião sobre o caso no programa de Hip Hop da rádio MFM, 360 graus, mas por motivos de saúde não pôde aparecer, enfim, o que é facto é que o rap angolano vive um momento de ouro.

É que além dessas batalhas voltarem a acordar o Hip-Hop nacional (e que é bom se for bem aproveitado), é mais uma oportunidade que pode servir de barómetro para (medir) a disposição demográfica do país na Internet ou mais concretamente nas redes sociais.

A Internet das ilusões pode voltar assim a distrair mais uma vez, e desta no entretenimento, como foi com a força política revelação de 2012, e a própria UNITA, que viram um pouco defraudadas as expectativas após os resultados eleitorais, na sequência de uma aparente excelente reacção do povo em território virtual. Recordemos que, de acordo com dados do último recenseamento da população, apenas 10% da população angolana tem acesso aos serviços de internet, ganhando apenas países como os Congos e Ruanda, com menos de 8% e Mali com 2%. Segundo dados disponíveis na internet (2012), países próximos como Namíbia 12%, Zâmbia e Tanzânia com 13%, dão-nos capote. Só Moçambique e África do Sul dispõem cada de mais de 45%. Porém não sabemos da mesma estatística para as redes sociais, pelo menos para nós, o que nos seria mais preciso e para avaliarmos.

Aquando das análises deste bife é necessário ter-se em conta o factor idade. Os jovens nascidos em finais de 90 e início de 2000 deverão ser os maiores dominadores das redes sociais virtuais, acrescentando a isso o facto de ser a franja em maioria da nossa sociedade, o que poderá explicar a tendência das sondagens expressarem mais à FS em detrimento do PX, estes, cujos apoiantes são já os mais barbudos, estão em desvantagem pela fraca participação nas redes por causa, supostamente, das responsabilidades que têm de enfrentar no dia-a-dia e por isso mesmo, vêem-se obrigados a assumir uma posição mais comedida e pedagógica possível sob o risco de cair numa cilindrada reacção inconsequente e sem compromissos nem agendas que caracterizam os novinhos (os tais Teenage).

Outro elemento interessante neste fenómeno é a solidariedade dos mais velhos para com a FS, o cenário curioso configura-se em os graúdos não artistas, apreciadores, identificarem-se com a história de superação de rapazes saídos da Angola sangrenta e unirem-se para a sobrevivência num território completamente alheio, com as consequentes características que isso traz, como o racismo e a xenofobia, o que motiva um misto de revolta e frustração como sentimento e assim encontrarem o caminho mais fácil para vencerem as dores, que é a procura por formas de empoderamento, que se não for por via legal é no crime. Já tiveram fama por isso mesmo, eles próprios fazem questão de contar um pouco de si em entrevistas e músicas, todos sabemos. Ora, talvez seja isto que torna autêntica a arte dos jovens, na medida em que também mostram os progressos, do crime para o ganho da vida de forma honesta. Estamos todos a acompanhar.

Por outro lado, nota-se também que muitos rappers que concorreram com a Army Squad e depois com os Kalibrados revêem-se cada vez mais nos meninos da Linha de Sintra por razões quase óbvias, já que aqueles emblemas do rap nacional (Army e Kali) eram febres nos respectivos momentos de tal forma que ninguém os podia parar: punchlines e bifes foram mandados sob o olhar de uns e incapacidade de outros em responder. Por exemplo, Gangster Pick, de um grupo antigo de rap, Consciência Activa, chegou a considerar num programa de rádio que o PX é um grupo infantil, se as razões que levaram a criar (e está próximo de ser verdade) for para responder a FS. Terrível é outro rapper que descreve PX como que está numa fase em se encontram num barco no alto-mar e se vêem rodeados de tubarões.

Ora, o que é certo é que boa parte dos rappers pensavam e continuam a pensar que elementos da Army como os dos Kali achavam-se imbatíveis, sobretudo Vui-Vui, que já fez “o pai do rap virar padrasto”, “Boss AC de caxico” e “mandaram no block” dos outros… E hoje há quem está a tirar-lhe, também aos outros, o sono, um feito que muitos MCs desejavam há algum tempo, talvez se explique a perda de terreno por parte do Projecto X (na internet), tendência em os rappers apoiarem NGA e companhia.