Texto: Redacção 


A Jovens da Banda traz aos leitores a perspectiva de algumas famílias em relação aos parentes viciados em droga. Casos que vão desde a fuga do seio familiar até à prisão, e algumas formas de lidar com situações do género, sob ponto de vista de uma especialista. 

A socióloga Teresa Capela refere que tão logo seja identificado o problema (do vício) a família deve trabalhar na confiança, no sentido de fazer com que o indivíduo sinta que apesar da sua condição tem ainda o suporte familiar. “A abordagem deve cingir-se no diálogo, convencendo-o de que o problema carece de ajuda profissional e sobretudo de força de vontade”, entende. “Se o problema for identificado no princípio, o psicólogo e o apoio familiar possivelmente bastam, num estágio mais avançado os centros de reabilitação seriam a solução mais sensata”, alerta. 

Segundo nos informou, o vício torna-se insustentável no ponto em que o viciado põe em risco a segurança da família, cometendo actos abusivos como: roubar, agredir, atentar contra a vida dos parentes, etc. Neste caso a racionalidade do indivíduo já está comprometida e a procura por ajuda profissional deve ser urgente, pois a família por si só é insuficiente para a resolver o problema. 

Teresa Capela acrescentou ainda que a franja mais afectada é “extremamente” relativa e depende muito do tipo de vício, porém, observa, os adolescentes e jovens independentemente do sexo e da classe social são os mais afectados, principalmente no que toca ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas, que hoje em dia se vendem até nas portas dos colégios e escolas públicas. “Cuidem da criança, pois esta será o adolescente, o jovem de amanhã.”, alerta. “Que os pais tenham tempo para dialogar e acompanhar o trajecto dos filhos”. 

Nenhum filho torna-se viciado da noite para o dia. Conheçam os lugares, amizades e influências dos filhos”, adverte revelando que “muitos (jovens) foram apanhados pelo vício por negligência da própria família. “Estejamos atentos a bem da sociedade angolana” conclui. 

Acompanhamos a história do jovem, de 20 anos, que prefere ser identificado apenas como Vado, abandonou a família e exerce a ocupação de bagageiro nas imediações do supermercado Kero da rua Alameda, em Luanda. Foi lá parar devido os problemas familiares constantes entre ele e a sua madrasta, com quem vivia no bairro dos ossos em companhia do pai e de mais dois irmãos.

 

A trajectória foi difícil desde a morte da mãe, pelo facto de seu pai se distanciar da sua criação e passar a cuidar mais dos filhos da nova relação. Envolveu-se a partir daí com as más companhias do bairro e em pouco tempo evoluiu do consumo da Cannabis (liamba) para outras  drogas mais pesadas. “Saí de casa porque não me sentia bem, os problemas eram muitos e preferi vir viver aqui na rua onde tenho mais liberdade e estou mais à vontade” conta acrescentando que sempre que se encontra com um familiar que esteja a passar ou a fazer compras perto do recinto onde trabalha, sente um desconforto e muita vezes chega mesmo a chorar por nostalgia. 

Perguntamo-lo se podíamos falar com um dos familiares com quem ainda mantém contacto, deu-nos o terminal telefônico de uma prima mais velha que trabalha nos arredores. A jovem contou, com tristeza, a dificuldade que é viver a saber que um irmão está nessas condições. “É uma agonia constante… vivemos apreensivos sem saber se ele está bem. A pessoa dorme e reza para quando acordar não receber a notícia que lhe aconteceu alguma coisa”, relatava não contendo as lágrimas, e disse ainda aos prantos que “a situação dele dentro de casa era “insustentável”, “tentamos recuperá-lo e algumas vezes conseguimos fazer com que ele voltasse para casa” mas o jovem voltava a sair e nesse período desapareciam coisas em casa, disse, “ficamos com as mãos atadas sem saber o que fazer”. De acordo com a parente, na família ninguém quis receber e tratar dele porque todos têm filhos pequenos “e é complicado viver com alguém que tem esse vício”, não é um ambiente saudável para as crianças, sem falar da segurança”.

Vado mostrou-nos o lugar onde passa as noites numa das ruas dos Combatentes e lá ficamos a conhecer Abel, outro jovem que por razões idênticas vive a deambular pela cidade sem residência fixa.

Abel contou que desde que veio do Bié, fugido da guerra, viveu quase sempre com a sua madrinha, uma vez que o pai morreu nos confrontos e o resto da família tinha ficado sem condições para se manter. “A minha madrinha não tinha filhos, por causa disso era uma mãe pra mim e sofreu muito com a minha situação. Essa maka da lata me arranjou problemas e fez me agarrarem. Quando fui preso ela depois adoeceu e acabou por morrer”, contou. “As pessoas se afastaram e nem me ligavam mais” , lembrou. Depois da morte da sua mãe adoptiva, Abel viu-se forçado a viver na rua e perdeu o total contacto dos tios e primos com quem tivera convivido, que o acusavam de ter sido um dos culpados da tragédia.